Genética

Brasileiros brancos: 61% das linhagens maternas eram indígenas ou africanas; das paternas, 2,5% africanas

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Em 247 brasileiros classificados sobretudo como brancos, 33% das linhagens maternas (DNA mitocondrial) eram ameríndias e 28% africanas. Em 200 homens brancos, só 2,5% das linhagens paternas (cromossomo Y) eram africanas e nenhuma ameríndia. Os autores leem isso como uniões dirigidas entre homens europeus e mulheres indígenas e africanas, mas as amostras eram de classe média e o DNA não revela como cada união aconteceu.

O DNA mitocondrial (mtDNA) passa só pela mãe e o cromossomo Y só do pai ao filho homem; nenhum dos dois se recombina, então cada um conta apenas uma linha da árvore genealógica. Certos grupos de variantes, os haplogrupos, são típicos de um continente, e isso permite estimar de onde veio a linhagem materna ou paterna de uma pessoa. Dois estudos da UFMG, publicados em 2000 e 2001, usaram esse método em brasileiros. A pergunta era quanto cada povo (europeu, indígena, africano) contribuiu por mãe e por pai. A resposta foi assimétrica. Este post trata dos marcadores de uma linha só; a mistura medida no genoma inteiro está no post sobre o EPIGEN, e a relação entre cor declarada e ancestralidade, no post sobre cor autodeclarada.

Entre pretos e pardos de Porto Alegre, o Y era europeu em 56%

Num estudo de 2009 em Porto Alegre, entre pessoas classificadas como pretas ou pardas, 79% das linhagens maternas eram africanas, mas 56% das paternas eram europeias. Entre as classificadas como brancas, 99% das paternas eram europeias.

Como sabemos: duas linhas da árvore, na mesma amostra

O mtDNA e o Y são herdados sem recombinação, então um haplogrupo identifica uma linhagem inteira: a materna no primeiro caso, a paterna no segundo. Como haplogrupos de continentes diferentes são distintos, a classificação dá a origem da linha. A força do desenho está em ter os dois marcadores nas mesmas pessoas; o limite é que cada um cobre uma fração ínfima da ancestralidade total, pois um indivíduo tem muitos ancestrais fora dessas duas linhas.

O que os números dizem e o que não dizem

Na amostra de 2000-2001, 33% das linhagens maternas eram ameríndias e 28% africanas; entre os homens, só 2,5% das linhagens paternas eram africanas e nenhuma ameríndia. Os autores tratam isso como piso para a contribuição materna não europeia, pela amostra de classe média. Os dados valem para brancos desse recorte, e o estudo de 2009 mostra que nos classificados como pretos e pardos de Porto Alegre o Y europeu chegou a 56%. A assimetria depende de quem entra na amostra.

A história por trás, dita como as fontes dizem

Os geneticistas atribuem o padrão ao povoamento: colonização feita de início só por homens, povos indígenas em queda demográfica por conflitos e doenças, e africanos trazidos como escravos desde o século XVI. O estudo de 2009 fala em restrições compulsórias à reprodução dos homens africanos escravizados. Os artigos não detalham as circunstâncias das uniões, e os dados genéticos tampouco o fazem: mostram a assimetria entre linhagens, não o que aconteceu a cada pessoa.

Por que este não é o retrato completo

Marcadores de uma só linha ignoram quase todos os ancestrais. Por isso, uma revisão de 2019 excluiu os marcadores uniparentais de sua análise: eles representam só um lado da história de ancestralidade. Para a mistura medida no genoma inteiro, veja o post sobre o estudo EPIGEN.

Como sabemos

Os números foram conferidos nos textos integrais de dois estudos de 2000-2001, um de 2009 e uma revisão de 2019; a interpretação histórica é dos autores e as amostras são de brancos, em geral de classe média.

Fontes

  1. American Journal of Human Genetics (UFMG) — The ancestry of Brazilian mtDNA lineages
    Alves-Silva, J.; da Silva Santos, M.; Guimarães, P. E. M.; Ferreira, A. C. S.; Bandelt, H.-J.; Pena, S. D. J.; Prado, V. F. · 2000 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1086/303004
  2. American Journal of Human Genetics (UFMG) — The phylogeography of Brazilian Y-chromosome lineages
    Carvalho-Silva, D. R.; Santos, F. R.; Rocha, J.; Pena, S. D. J. · 2001 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1086/316931
  3. Genetics and Molecular Biology — Genetic signatures of parental contribution in black and white populations in Brazil
    Guerreiro-Junior, V. et al. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  4. Genetics and Molecular Biology — A systematic scoping review of the genetic ancestry of the Brazilian population
    Souza, A. M.; Resende, S. S.; Sousa, T. N.; Brito, C. F. A. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1590/1678-4685-gmb-2018-0076
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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