História da Ásia

Ashoka, o imperador indiano que gravou em pedra seu arrependimento pela guerra

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Por volta de 261 a.C., o imperador Ashoka conquistou Kalinga, no leste da Índia, e mandou gravar em rocha o preço da vitória: segundo o Édito XIII, 150 mil pessoas deportadas, 100 mil mortas e muitas outras mortas por outras causas. O próprio texto diz que ele sentiu remorso e que a melhor conquista seria a do dhamma, a conduta moral. É um governante registrando, com suas palavras e para todo o império, o arrependimento por uma guerra.

Ashoka, do Império Maurya, reinou por volta de 269–232 a.C. e herdou um domínio que ia de Gujarate a Bengala e do Afeganistão a Karnataka. O Édito XIII diz que Kalinga foi conquistada oito anos depois de sua sagração. Depois da guerra, ele passou a gravar mensagens em rochas e pilares, em escrita brahmi e em língua prácrita, com cópias em vários pontos do império; perto de Kandahar, no Afeganistão, há também uma versão bilíngue em grego e aramaico. O mesmo Édito XIII cita, como reis vizinhos, Antíoco, Ptolomeu, Antígono, Magas e Alexandre, e afirma que o dhamma teria chegado até eles.

Do capitel de Sarnath ao emblema da Índia

O capitel de quatro leões de Sarnath, hoje no museu do sítio, deu origem ao Emblema do Estado da Índia: o perfil mostra três leões, a roda do dhamma, um touro e um cavalo, com o lema Satyameva Jayate, "somente a verdade triunfa".

O que o Édito XIII afirma

O édito diz que Kalinga foi conquistada oito anos depois da sagração do rei, que 150 mil pessoas foram levadas cativas, 100 mil foram mortas e muitas outras morreram de outras causas. Em seguida fala de remorso e de profundo pesar, e acrescenta um lamento pelos brâmanes, ascetas e chefes de família atingidos. Também avisa aos povos da floresta que abandonem o mau caminho para não serem castigados, e pede aos descendentes que, se fizerem guerra, a vejam com paciência e brandura. Não é um pacifismo absoluto, e o texto não esconde isso.

O dhamma: moral, não doutrina

Dhamma é a forma prácrita do sânscrito dharma e costuma ser vertido por moral, piedade ou retidão, quase nunca por religião. Nos éditos ele inclui obedecer a pais e mais velhos, tratar bem servos e escravos e poupar seres vivos. O Édito XII vai além: o rei honra todas as seitas e pede que ninguém louve a sua desprezando a dos outros sem motivo. Para Patrick Olivelle, é um projeto ecumênico de moral universal, em que Ashoka apresenta a sua própria interpretação do dharma.

Éditos e lenda: o que vem de onde

O Édito XIII liga a guerra ao dhamma, mas não nomeia o Buda. O apoio ao budismo vem de outras inscrições: um édito menor diz que o rei foi dois anos e meio seguidor leigo, o de Bairat declara fé no Buda, no Dharma e no Samgha, e a inscrição de Lumbini registra sua visita ao local de nascimento do Buda. Já a lenda mais elaborada, o Ashokavadana, é um texto sânscrito do século II d.C. Olivelle separa os dois Ashokas, o das inscrições e o dos textos posteriores, e o que aparece aqui vem só do primeiro.

Como a escrita voltou a ser lida

Os éditos estavam em escrita brahmi, que deixou de ser lida. No século XIX, James Prinsep a decifrou e identificou o autor das inscrições como Devanampiya Piyadassi, o Amado dos Deuses, publicando suas conclusões em 1837. Em 1957, um édito bilíngue em grego e aramaico apareceu perto de Kandahar. O capitel de Sarnath, por sua vez, é hoje a base do emblema oficial da Índia. O que antes era pedra sem leitor virou a principal fonte direta para conhecer o próprio Ashoka.

Como sabemos

O Édito XIII e as inscrições estão bem documentados em tradução e artigo acadêmico; a decifração por Prinsep apoia-se em fonte única aberta e as datas absolutas são aproximadas.

Em debate: Os números de Kalinga são os do próprio rei, sem contagem independente, e as traduções do édito variam no que diz sobre as mortes por outras causas.

Em debate: Historiadores debatem o quanto o dhamma de Ashoka é budismo: Olivelle o descreve como moral universal, não idêntica à doutrina do Buda, e Sinha vê no rei um budista declarado cujo dhamma estava acima do sectarismo.

Em debate: A conversão "imediata" ao budismo depois de ver os mortos de Kalinga é narrativa posterior; o Édito XIII fala de remorso e de dhamma sem nomear o Buda, e o Édito Menor e outras inscrições atestam o apoio ao budismo em momentos distintos.

Fontes

  1. Universidade Columbia — The Edicts of Asoka (Rock Edicts IV, XI, XII e XIII, trad. V. A. Smith)
    consultada em 05/10/2026
  2. UNESCO, Centro do Patrimônio Mundial (lista indicativa da Índia) — Serial nomination for Ashokan Edict sites along the Mauryan Routes
    consultada em 05/10/2026
  3. Universidade de Cambridge (repositório; Bulletin of Tibetology, 1994) — Asoka's Dhamma
    consultada em 05/10/2026
  4. Yale University Press — Ashoka: Portrait of a Philosopher King
    consultada em 05/10/2026
  5. Yale University Press — A Shining Star of Kingship: Emperor Ashoka in the 3rd Century BCE
    consultada em 05/10/2026
  6. Princeton University Press — The Legend of King Asoka: A Study and Translation of the Asokavadana
    consultada em 05/10/2026
  7. Governo da Índia, Ministério do Interior — The State Emblem of India (Prohibition of Improper Use) Act, 2005, Anexo
    consultada em 05/10/2026
  8. World History Encyclopedia — The Edicts of Ashoka the Great
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria ampliada: +4 imagem(ns)
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