Astronomia
Aryabhata escreveu em 499 que a Terra gira em torno do próprio eixo
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
Em 499, aos 23 anos, o astrônomo indiano Aryabhata concluiu o Aryabhatiya, tratado em versos. Nele, a Terra gira de oeste para leste, e o giro diário das estrelas é só aparência: como o passageiro de um barco que vê as margens recuarem. Não foi o primeiro a sugerir a rotação (Heráclides do Ponto o fez por volta de 350 a.C.), mas é o texto astronômico indiano mais antigo conhecido a afirmá-la com clareza.
Aryabhata nasceu em 476 e se dizia natural de Kusumapura, junto a Pataliputra, capital do Império Gupta, perto da atual Patna. O Aryabhatiya tem pouco mais de cem versos, em quatro seções: Gitika, Ganita, Kalakriya e Gola. Além da rotação da Terra, explica os eclipses por sombras, no lugar dos demônios Rahu e Ketu, e usa 62.832/20.000, ou 3,1416, como valor de pi. A rotação foi rejeitada por muitos astrônomos indianos, entre eles Brahmagupta, que a atacou com argumentos de queda de corpos. O próprio Aryabhata não deixou explicação de como chegou a ela, e o texto não a usa para simplificar nenhum cálculo.
O nome no primeiro satélite indiano
Em 19 de abril de 1975, a Índia pôs em órbita o Aryabhata, seu primeiro satélite, de 360 kg, construído pela ISRO e lançado de Kapustin Yar, na União Soviética, num foguete Kosmos-3M. Levava instrumentos de raios X, nêutrons solares, raios gama e ionosfera. Foi homenageado nas notas de 2 rúpias de 1976 a 1997.
O autor e o livro
Aryabhata escreveu em Kusumapura, na região de Pataliputra, capital dos Gupta, e dá a própria idade no texto: 23 anos, 3.600 anos depois do início da era Kali Yuga, o que leva a 499. O Aryabhatiya é um tratado denso, de pouco mais de cem versos, escrito para ser lembrado e comentado, não para explicar tudo. Por isso gerações de astrônomos o comentaram, sobretudo no sul da Índia.
A rotação e o barco
O verso Gola 9 compara o observador a quem viaja de barco rio abaixo e vê as árvores das margens correrem para trás. As estrelas fixas parecem ir para oeste porque a Terra gira para leste. Os números do texto implicam uma rotação de 23 h 56 min 4,1 s, quase igual ao valor moderno de 23 h 56 min 4,09 s, segundo a conversão de Amartya Dutta.
Aceitação e crítica
A ideia dividiu os astrônomos indianos. Varahamihira, Brahmagupta e Lalla a rejeitaram, e Lalla perguntava como as aves voltariam aos ninhos numa Terra veloz. Brahmagupta calculou que a Terra se moveria cerca de 1.000 milhas por hora e que um corpo largado não cairia ao pé da montanha. Prthudaka Svami, em 860, defendeu Aryabhata. Os argumentos só ganharam resposta com a mecânica de Galileo e Newton.
Eclipses, pi e o mundo islâmico
No Gola, Aryabhata explica que a Lua e os planetas brilham por luz do Sol e que os eclipses são sombras, e não obra dos demônios Rahu e Ketu. No Ganita, usa 3,1416 para pi. A obra foi traduzida para o árabe por volta de 820, segundo o MacTutor, e Al-Biruni registrou que os seguidores de Aryabhata defendiam a rotação da Terra.
Como sabemos
Datas, citações e o resumo do texto conferidos em artigo revisado do Indian Statistical Institute, na biografia da Universidade de St Andrews e na página oficial do satélite; os pontos de debate foram escritos como debate.
Em debate: Se Aryabhata concebeu também a translação da Terra em torno do Sol: o texto não o afirma, e alguns estudiosos veem indícios nos períodos planetários, enquanto outros veem apenas rotação.
Em debate: Quantidade exata de versos do Aryabhatiya e datas das traduções árabes variam entre as fontes.
- Consenso científico: Aryabhata compôs o Aryabhatiya em 499, aos 23 anos, e nasceu em 476. [1] [2]
A data é deduzida do próprio texto, que diz que a obra foi composta 3.600 anos depois do início da era Kali Yuga, quando o autor tinha 23 anos. - Fato estabelecido: Aryabhata se dizia natural de Kusumapura ou Pataliputra, junto à atual Patna, capital do Império Gupta. [1]
- Fato estabelecido: O Aryabhatiya tem pouco mais de cem versos, em quatro seções: Gitika, Ganita, Kalakriya e Gola. [2] [3]
Dutta conta 121 versos e o MacTutor, 118; por isso o texto diz 'pouco mais de cem'. - Fato estabelecido: O Aryabhatiya afirma que a Terra gira de oeste para leste e que o movimento diário aparente dos astros é ilusão causada por essa rotação. [3]
Passagens Gitika 3 e 6, Kalakriya 5 e Gola 9 e 10, segundo Dutta. - Fato estabelecido: Aryabhata compara o observador na Terra ao passageiro de um barco que vê objetos parados nas margens se moverem em sentido contrário; o observador em Lanka vê as estrelas fixas se movendo para oeste. [3]
Lanka, no verso, é o ponto do equador sobre o meridiano de Ujjain, e não o atual Sri Lanka. - Evidência forte: Os números do Aryabhatiya equivalem a um período de rotação da Terra de 23 h 56 min 4,1 s, contra 23 h 56 min 4,09 s do valor moderno. [4]
Conversão feita por Dutta a partir do número de rotações da Terra por yuga declarado no texto. - Consenso científico: Heráclides do Ponto (cerca de 350 a.C.) e Ecfanto já tinham proposto a rotação axial da Terra na Grécia. [4]
- Interpretação: O Aryabhatiya é o mais antigo texto astronômico indiano conhecido que menciona com clareza a rotação da Terra. [4]
Afirmação de Dutta (2006); depende de não haver texto indiano anterior conhecido. - Fato estabelecido: Aryabhata explica os eclipses por sombras, em vez dos demônios Rahu e Ketu, e diz que a Lua e os planetas brilham por luz solar refletida. [1] [2]
- Fato estabelecido: Aryabhata usa 62.832/20.000, igual a 3,1416, como valor de pi. [1] [2]
- Fato estabelecido: Varahamihira, Brahmagupta (628) e Lalla rejeitaram a rotação da Terra; Prthudaka Svami (860) a defendeu. [4]
- Fato estabelecido: Brahmagupta argumentou que um corpo largado do alto de uma montanha não cairia ao pé dela se a Terra girasse. [4]
- Em debate: Não há no Aryabhatiya frase que afirme explicitamente que a Terra gira em torno do Sol; se Aryabhata tinha esse modelo em mente é questão em aberto. [4]
Dutta nota que o texto não diz isso, mas cita historiadores que veem indícios tácitos de heliocentrismo. - Estimativa: O Aryabhatiya foi traduzido para o árabe por volta de 820, e Al-Biruni registrou que os seguidores de Aryabhata sustentavam a rotação da Terra. [1]
A data da tradução é aproximada e a datação varia segundo a fonte e a versão considerada. - Fato estabelecido: O Aryabhata, primeiro satélite indiano, foi lançado em 19 de abril de 1975, de Kapustin Yar, num foguete soviético Kosmos-3M, com 360 kg. [5]
- Fato estabelecido: O satélite levava experimentos de raios X cósmicos, nêutrons solares, raios gama e ionosfera, e foi homenageado nas notas de 2 rúpias entre 1976 e 1997. [5]
Fontes
- MacTutor, Universidade de St Andrews — Aryabhata and Early Indian Mathematics (Aryabhata, 476-550)
consultada em 05/10/2026 - MacTutor, Universidade de St Andrews — Aryabhata I
consultada em 05/10/2026 - Resonance, Indian Academy of Sciences; Indian Statistical Institute — Aryabhata and Axial Rotation of Earth, 1. Khagola (The Celestial Sphere)
consultada em 05/10/2026 - Resonance, Indian Academy of Sciences; Indian Statistical Institute — Aryabhata and Axial Rotation of Earth, 3. A Brief History
consultada em 05/10/2026 - U R Rao Satellite Centre (ISRO) — Aryabhata
consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão