Ecologia

Das cerca de 16 mil espécies de árvores da Amazônia, só 227 respondem por metade das árvores

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Os seis biomas do Brasil

Estima-se que a Amazônia tenha cerca de 16 mil espécies de árvores, mas apenas 227 delas (1,4%) somam metade de todos os indivíduos. Essa concentração, chamada hiperdominância, vem de 1.170 parcelas de inventário extrapoladas para a bacia. A maioria dessas espécies domina só um ou dois tipos de floresta ou regiões, e as causas do padrão ainda são debatidas.

Hiperdominância é o termo usado para as espécies mais abundantes de uma flora: na Amazônia, as 227 que formam a metade de todas as árvores com tronco de 10 cm ou mais de diâmetro. O resultado vem de parcelas, áreas demarcadas na floresta onde todas as árvores são medidas e identificadas, reunidas na rede Amazon Tree Diversity Network. Como nenhuma equipe consegue contar árvores em 6 milhões de km², um modelo estatístico estima quantos indivíduos de cada espécie existem na bacia. Por isso os números são estimativas, e não contagens. A mesma floresta tem milhares de espécies muito raras, cuja presença quase não aparece nos inventários.

A árvore mais comum é uma palmeira

Na estimativa, a espécie mais abundante da Amazônia é a palmeira Euterpe precatoria, com 1,32% de todas as árvores. Ela entra na conta porque palmeiras têm tronco livre e passam o corte de 10 cm de diâmetro usado no estudo.

Como sabemos: de parcelas a uma bacia inteira

As equipes mediram e identificaram árvores com tronco de 10 cm ou mais de diâmetro em 1.170 parcelas. Um modelo espacial usou só a localização e a abundância observada para estimar a população de cada espécie na bacia, e uma curva teórica de abundâncias (série logarítmica de Fisher) estimou o total de espécies. Os autores testaram a lista por reamostragem e comparações indiretas, como a área de palmeirais conhecidos. Admitem que nenhuma população amazônica foi contada diretamente. [a2][a11][a12]

O que o número não diz

A dominância é por região e tipo de floresta: 121 das 227 espécies são especialistas de um tipo de floresta, e só uma, Eschweilera coriacea, domina nas seis regiões analisadas. Na outra ponta, milhares de espécies são tão raras que podem nunca ser descritas, e o corte de 10 cm deixa de fora arbustos e arvoretas. A lista de hiperdominantes é um retrato estatístico da bacia, não um mapa do que domina em cada trecho de floresta. [a4][a5][a6]

Por que poucas espécies dominam? Hipóteses

Os autores não encontraram relação consistente entre hiperdominância e massa da semente ou densidade da madeira: há espécies tolerantes e intolerantes à sombra na lista. Propõem, como previsão a testar, que essas espécies resistam melhor a patógenos e herbívoros especialistas. Também citam o cultivo humano antes de 1492, mas ponderam que a maioria das hiperdominantes não é cultivada. Nenhuma dessas ideias está estabelecida. [a8][a9][a10]

O debate sobre a influência pré-colombiana

Levis e colegas mostraram que 20 de 85 espécies domesticadas são hiperdominantes e que as domesticadas aumentam perto de sítios arqueológicos, sobretudo no sudoeste e no leste. O método não demonstra causalidade e deixa cerca de 70% da variação sem explicação. McMichael e colegas respondem, pelo resumo do comentário, que a influência dos últimos cinco séculos pode ter pesado mais. A questão segue aberta. [a13][a14][a15]

Como sabemos

Números centrais conferidos no texto integral do estudo de 2013, mas são estimativas por modelo, e o comentário crítico foi lido só no resumo.

Em debate: Levis et al. (2017) associam espécies domesticadas a sítios arqueológicos e à hiperdominância; McMichael et al. (2017), segundo o resumo do comentário, argumentam que efeitos pós-colombianos provavelmente pesaram mais. Os dois lados usam dados observacionais e nenhum prova causalidade.

Fontes

  1. Science — Hyperdominance in the Amazonian Tree Flora
    ter Steege, H. et al. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1243092
  2. Science — Persistent effects of pre-Columbian plant domestication on Amazonian forest composition
    Levis, C. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aal0157
  3. Science (registro no PubMed) — Comment on "Persistent effects of pre-Columbian plant domestication on Amazonian forest composition"
    McMichael, C. H. et al. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aan8347
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 1; conferência de trechos automatizada)

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