Astronomia
Aristarco de Samos propôs, cerca de 18 séculos antes de Copérnico, que a Terra gira em torno do Sol
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
No século III a.C., o astrônomo grego Aristarco de Samos sustentou que o Sol e as estrelas fixas ficam parados e que a Terra percorre uma órbita circular em torno do Sol. Sabemos disso porque Arquimedes descreveu a hipótese em O Contador de Areia, escrito antes de 216 a.C.; o texto do próprio Aristarco sobre o assunto se perdeu. A ideia quase não teve seguidores na Antiguidade e só voltou ao debate com Copérnico, em 1543.
Aristarco nasceu em Samos por volta de 310 a.C. e morreu por volta de 230 a.C. Estudou com Estratão de Lâmpsaco, provavelmente em Alexandria. Seu único tratado que chegou até nós, Sobre os tamanhos e as distâncias do Sol e da Lua, é geometria pura: na meia-lua, o ângulo entre o Sol e a Lua, visto da Terra, permite calcular quantas vezes o Sol está mais longe que a Lua. Ele usou 87° (o valor real é cerca de 89° 50′) e chegou a uma razão de 18 a 20 vezes; a real é de cerca de 400. O raciocínio estava certo, a medida do ângulo é que era impossível de fazer bem a olho nu. O modelo com o Sol no centro, por sua vez, só conhecemos por relatos de outros autores.
O nome que Copérnico riscou
No manuscrito de As Revoluções, Copérnico chegou a associar Aristarco a Filolau como defensor de uma Terra em movimento. Apagou a passagem antes de publicar o livro, em 1543. O motivo é debatido; uma explicação é que ele evitou ligar a ideia a um nome acusável de impiedade.
O testemunho de Arquimedes
A fonte mais antiga sobre o modelo é O Contador de Areia, de Arquimedes, escrito antes de 216 a.C. Arquimedes queria estimar quantos grãos de areia caberiam no universo e, para isso, precisava do tamanho do cosmos. Ao citar medidas de Eudoxo, de seu pai Fídias e de Aristarco, registra que as hipóteses de Aristarco eram: estrelas fixas e Sol parados, Terra em órbita circular em torno do Sol.
O problema que ninguém conseguia medir
Se a Terra se move em volta do Sol, as estrelas próximas deveriam mudar de posição aparente ao longo do ano, efeito chamado paralaxe. Ninguém na Antiguidade o observou. Para manter o modelo, Aristarco precisava supor estrelas extremamente distantes. Essa foi uma das objeções fortes, junto com a física de Aristóteles, que tratava a Terra como o lugar natural de repouso.
Poucos seguidores, um acusador
O único defensor conhecido do modelo na Antiguidade é Seleuco de Selêucia, por volta de 150 a.C. Plutarco conta ainda que Cleantes, chefe da escola estoica, achava que Aristarco merecia ser acusado de impiedade por mover a Terra. É um relato indireto, tardio, e não se sabe se houve processo. O que sobra é um modelo conhecido por citações, não por uma obra completa.
Copérnico e o precedente
Em 1543, Copérnico publicou o modelo com o Sol no centro. A Linda Hall Library avalia que ele provavelmente não partiu de Aristarco; ainda assim, no manuscrito associou o astrônomo a Filolau e depois riscou a passagem. Séculos mais tarde, defensores de Copérnico passaram a citar Aristarco como prova de que a Terra em movimento tinha precedente entre os antigos.
Como sabemos
Os fatos centrais vêm de Arquimedes, Plutarco e de biografias de referência; os pontos incertos estão marcados.
Em debate: Uma explicação é o receio de ligar o livro a um nome associado à acusação de impiedade relatada por Plutarco. O manuscrito não traz justificativa, e a questão segue em discussão entre historiadores.
- Estimativa: Aristarco de Samos viveu aproximadamente entre 310 e 230 a.C. e estudou com Estratão de Lâmpsaco, provavelmente em Alexandria. [1] [2]
As datas são aproximadas; o local do estudo é dado como provável. - Fato estabelecido: Arquimedes, em O Contador de Areia, escrito antes de 216 a.C., descreve a hipótese de Aristarco: as estrelas fixas e o Sol ficam parados, e a Terra se move em órbita circular em torno do Sol. [3] [5]
- Fato estabelecido: Não sobreviveu nenhuma obra de Aristarco que descreva o modelo com o Sol no centro; ele é conhecido por Arquimedes e por Plutarco. [1] [2]
- Consenso científico: Segundo Plutarco, Aristarco fazia a Terra percorrer a eclíptica e, ao mesmo tempo, girar em torno do próprio eixo. [3]
É o relato de Plutarco, autor posterior a Aristarco. - Fato estabelecido: O único tratado de Aristarco que chegou até nós é Sobre os tamanhos e as distâncias do Sol e da Lua. [2] [3]
- Fato estabelecido: O método do tratado usa a geometria: com a Lua em meia-lua, o ângulo entre o Sol e a Lua, visto da Terra, permite calcular a razão entre as distâncias deles. [1]
- Fato estabelecido: Aristarco adotou um ângulo de 87°, enquanto o valor real é cerca de 89° 50′; com isso, concluiu que o Sol está 18 a 20 vezes mais longe que a Lua, quando a razão real é de cerca de 400. [3] [2]
- Fato estabelecido: Aristarco concluiu que o Sol é cerca de 20 vezes maior que a Lua; o valor está uma ordem de grandeza abaixo do real, por limite de observação, não de raciocínio. [1]
- Consenso científico: Para o modelo funcionar sem paralaxe observável nas estrelas, Aristarco precisava supor que as estrelas fixas estavam extremamente distantes. [1]
- Incerto: Cleantes, chefe da escola estoica, teria achado que os gregos deveriam acusar Aristarco de impiedade por mover a Terra. [3] [4]
O relato é de Plutarco, séculos depois; não se sabe se houve alguma acusação formal. - Consenso científico: Seleuco de Selêucia, por volta de 150 a.C., é o único seguidor conhecido do modelo de Aristarco na Antiguidade. [3]
A data e a unicidade vêm de uma biografia de referência; novas fontes poderiam mudar o quadro. - Interpretação: O modelo teve pouca aceitação na Antiguidade, em parte porque modelos com a Terra no centro eram mais práticos para o cálculo e a física de Aristóteles parecia sustentar a Terra imóvel. [3]
Explicação de historiadores, não registro dos antigos. - Fato estabelecido: No manuscrito de As Revoluções, Copérnico associou Aristarco a Filolau como defensor de uma Terra em movimento e apagou a passagem antes de publicar o livro. [2] [4]
- Em debate: O motivo do apagamento é debatido: uma explicação é que Copérnico evitou ligar a ideia a um nome sobre o qual pesava o relato de impiedade. [4]
Não há documento em que Copérnico explique a decisão. - Fato estabelecido: As Revoluções das Esferas Celestes, de Copérnico, foi publicado em 1543, ano da morte do autor. [4]
- Interpretação: Copérnico provavelmente não derivou seu heliocentrismo de Aristarco, mas o nome de Aristarco passou a ser citado como precedente clássico para uma Terra em movimento. [2]
Avaliação da fonte, que usa 'provavelmente'.
Fontes
- MacTutor History of Mathematics, Universidade de St Andrews — Aristarchus of Samos (310 BC – 230 BC)
consultada em 06/10/2026 - Linda Hall Library — Aristarchus of Samos (Scientist of the Day)
consultada em 06/10/2026 - Complete Dictionary of Scientific Biography (Encyclopedia.com) — Aristarchus of Samos
consultada em 06/10/2026 - Complete Dictionary of Scientific Biography (Encyclopedia.com) — Nicholas Copernicus
consultada em 06/10/2026 - MacTutor History of Mathematics, Universidade de St Andrews — Archimedes of Syracuse
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão