Paleontologia

Archaeopteryx voava? O que a microtomografia de síncrotron mostra nos ossos da asa

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

A forma dos ossos da asa de três exemplares de Archaeopteryx, escaneados por microtomografia de síncrotron, se agrupa com a de arcossauros que voam, e não com a dos que não voavam. Os autores do estudo interpretam que o animal batia as asas para decolar, com um movimento diferente do das aves atuais. É uma inferência, não a observação de um voo.

O Archaeopteryx lithographica tem cerca de 150 milhões de anos e vem do Calcário de Solnhofen, no sul da Alemanha. Reúne traços de dinossauros que não voavam e de aves, o que tornou difícil dizer como se movia. Um osso longo funciona como uma viga: a espessura relativa da parede (o córtex) e a distribuição do material em torno do eixo mudam com o esforço que ele suporta, e por isso a seção transversal do úmero e da ulna, ossos do braço, serve de pista do modo de vida. Cortar um fóssil raro é inaceitável; a microtomografia de síncrotron, que usa raios X intensos e coerentes para gerar fatias virtuais, permitiu medir essas seções sem tocar nos fósseis.

Um exemplar chamado de "asa de frango"

O nono exemplar escaneado guarda só parte da asa direita, com os ossos parcialmente desarticulados. Como mantiveram quase intacta a forma tridimensional original, são bons para medir a seção do osso.

Como se mediu sem cortar o fóssil

A equipe usou microtomografia de contraste de fase no European Synchrotron Radiation Facility (ESRF), em Grenoble. Dela saem fatias virtuais do meio do úmero e da ulna. Foram escaneados três exemplares: o quinto (Eichstätt), o sétimo (Munique) e o nono (Bürgermeister-Müller). Esses dois ossos foram escolhidos porque, nas aves atuais, são os que mais mostram adaptação ao voo no braço. Cada seção foi comparada com as de 69 espécies de arcossauros de modos de locomoção variados.

Parede fina e resistência à torção

Duas medidas pesam na conclusão. A espessura relativa do córtex separa, em média, animais que voam dos que não voam: a do Archaeopteryx é mais fina que a de qualquer osso do grupo que não voa. A resistência à torção, normalizada pela massa, varia entre aves de modos de voo diferentes e tende a cair quanto maior a dependência de bater as asas. Os três exemplares ficam junto das aves que só batem as asas de modo ocasional, para fugir ou cruzar barreiras.

Limites do método

A análise acertou 95,52% na separação entre voadores e não voadores, e os erros foram aves que mergulham com as asas. Já dentro das aves voadoras, a classificação por modo de voo acertou só 53,62% e 56,52% das espécies de treino, por causa da grande sobreposição entre grupos. Os autores dizem que essa incerteza vale também para o Archaeopteryx. São só três exemplares, e o tipo de batida depende também da anatomia do ombro, que não foi escaneada.

O que outras evidências somam

Uma página do museu de paleontologia da Universidade da Califórnia descreve o esterno do animal como comparativamente plano e diz que ele provavelmente não era um voador forte. Em 2009, a histologia de um exemplar jovem indicou crescimento parecido com o de dinossauros não avianos. Em 2019, o Alcmonavis, outra ave da Alemanha, mostrou marcas de músculos de voo que sugerem asa mais adaptada ao bater de asas. Nenhuma dessas peças fecha a questão sozinha.

Como sabemos

A conclusão central vem de um único estudo (3 exemplares), cujo próprio método classifica mal os modos de voo; as demais fontes só contextualizam.

Em debate:

Fontes

  1. Nature Communications — Wing bone geometry reveals active flight in Archaeopteryx
    Voeten, D. F. A. E.; Cubo, J.; de Margerie, E.; Röper, M.; Beyrand, V.; Bureš, S.; Tafforeau, P.; Sanchez, S. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-018-03296-8
  2. UCMP, Universidade da Califórnia em Berkeley — Archaeopteryx: An Early Bird
    University of California Museum of Paleontology · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. PLoS ONE — Was Dinosaurian Physiology Inherited by Birds? Reconciling Slow Growth in Archaeopteryx
    Erickson, G. M.; Rauhut, O. W. M.; Zhou, Z.; Turner, A. H.; Inouye, B. D.; et al. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0007390
  4. eLife — A non-archaeopterygid avialan theropod from the Late Jurassic of southern Germany
    Rauhut, O. W. M.; Tischlinger, H.; Foth, C. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.7554/eLife.43789
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 8; conferência de trechos automatizada)

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