Zoologia
Araras comem barro nos barrancos, e a explicação mais bem apoiada hoje é o sódio, não a desintoxicação
Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026
Na Amazônia ocidental, bandos de araras e papagaios descem a barrancos de argila para comer terra. Duas explicações disputam o fenômeno: a argila protegeria contra toxinas dos frutos, ou daria sódio, mineral escasso na floresta. Em Tambopata, no Peru, os solos mais escolhidos tinham mais sódio, e o pico de consumo coincidiu com a reprodução, não com a falta de comida. A hipótese do sódio é a mais bem apoiada, mas não está encerrada.
Geofagia, o consumo de terra, é comum em animais, mas as causas quase nunca estão claras. O caso mais estudado em aves são os papagaios do oeste da Bacia Amazônica, que visitam barrancos expostos às margens dos rios, as colpas (collpas, em espanhol) ou barreiros. Três ideias foram testadas: a terra ajudaria a triturar o alimento, adsorveria toxinas dos frutos e sementes, ou forneceria minerais. Em Tambopata, a primeira foi descartada pelos solos preferidos, pobres em partículas grossas. Os dados mais recentes favorecem o sódio. Há ressalvas: o experimento que sustentou a hipótese das toxinas foi feito em laboratório, e no Brasil quase não há estudos quantitativos, só registros pontuais, como o de uma arara-canindé no Pantanal.
Sódio também em palmeiras
Em 2017, pesquisadores registraram 11 espécies de psitacídeos comendo o tronco e as folhas da palmeira Attalea butyracea, que cresce em solo rico em sódio. Em 94% dos 387 eventos de forrageio, o tronco foi consumido. Espécies que usam pouco as colpas foram as que mais comeram palmeira.
Três explicações em jogo
O estudo de 2004 no rio Tambopata testou três modelos para o consumo de argila: ajuda mecânica à digestão (grão que tritura o alimento), adsorção de toxinas da dieta e suplementação mineral. Cada modelo prevê algo diferente no solo. Grão grosso favoreceria a trituração. Muita argila e alta capacidade de troca de cátions favoreceriam a adsorção. Mais sódio favoreceria a suplementação mineral. Isso permite comparar solos que as aves usam com solos vizinhos que ignoram.
O que o solo mostrou
Os solos preferidos eram pobres em partículas grossas, e o teor de argila e a capacidade de troca de cátions não diferiam dos solos ignorados. Eram, porém, mais salinos e tinham mais sódio trocável. Em 18 colpas do sudeste do Peru, o sódio disponível era em média quatro vezes maior que o de solos controle. O teor de argila não acompanhava o sódio: o que atrai as aves parece ser o sal, não a argila em si, embora a textura pastosa possa servir de pista para achá-lo.
O calendário da geofagia
Se o motivo fosse toxina, as aves comeriam mais terra quando o alimento bom escasseia e elas recorrem a frutos mais tóxicos. Os dados de longo prazo mostraram o oposto: o pico de geofagia veio na época de reprodução das espécies, quando a demanda por nutrientes é maior, sem relação com a falta de comida. Para os autores, o conjunto das evidências aponta o sódio como motor do comportamento, ainda que essa análise não tenha medido o sódio diretamente.
E no Brasil?
Há registros de geofagia por araras e periquitos em barreiros e salinas do Pantanal, descritos em 2012 por Francisco Severo-Neto, que cita tapires e queixadas no mesmo local e trata as causas como hipóteses. Na Amazônia brasileira, não encontramos estudo quantitativo equivalente ao do Peru em fontes abertas. Isso não prova que o sódio explique tudo no país: os solos do Pantanal e da Amazônia brasileira diferem dos de Tambopata, e a pergunta continua aberta.
Como sabemos
Os fatos do Peru vêm de resumos de artigos revisados por pares; o experimento das toxinas e o único registro brasileiro são conferidos só em parte.
Em debate: Uma hipótese diz que a argila adsorve compostos tóxicos de frutos e sementes e protege o intestino. Outra diz que ela fornece sódio, raro na floresta de terras baixas. Em Tambopata, a escolha de solos, o ciclo sazonal e o uso de palmeiras ricas em sódio apontam para o sódio. Quem defende a explicação das toxinas tem experimentos de laboratório; falta mostrar o efeito em aves livres. As duas funções podem coexistir, e a causa pode variar entre espécies, regiões e solos.
- Fato estabelecido: No sudeste do Peru, nas margens do baixo rio Tambopata, dez espécies de psitacídeos, três de columbídeos e duas de cracídeos foram observadas comendo solo. [2]
- Evidência forte: Nesse estudo, os solos preferidos eram mais salinos e tinham mais sódio trocável; o teor de argila e a capacidade de troca de cátions, que previam adsorção de toxinas, não diferiam entre solos usados e não usados. [2]
Resultado de um único rio; os próprios autores dizem que a escolha do solo depende da gama de solos disponíveis. - Evidência forte: Os solos preferidos eram pobres em partículas grandes o bastante para ajudar a triturar o alimento, o que enfraquece a explicação mecânica (grão como auxiliar de digestão). [2]
- Fato estabelecido: Solos de 18 colpas no sudeste do Peru tinham em média quatro vezes mais sódio disponível que solos controle não consumidos; o teor de argila não se correlacionou com o sódio disponível. [3]
- Evidência forte: Em longo prazo, o pico de geofagia coincidiu com a época de reprodução das espécies, e não com a escassez de alimento; os testes não deram apoio à hipótese de proteção contra toxinas e apoiaram a de suplementação de nutrientes. [1]
Os autores dizem que o conjunto de evidências sugere que a necessidade de sódio move o consumo de solo, mas o sódio não foi medido diretamente nessa análise de sazonalidade. - Evidência forte: A chuva sazonal comanda a frutificação, a oferta de alimento define a época de reprodução dos papagaios, e a reprodução comanda o padrão sazonal da geofagia. [1]
- Interpretação: Os filhotes das maiores espécies de psitacídeos saem do ninho quando a oferta de alimento se aproxima do mínimo anual, o que sugere que mudanças climáticas nos picos de alimento poderiam afetar a reprodução. [1]
Inferência dos autores a partir de correlações. - Fato estabelecido: A hipótese de que a argila adsorve toxinas de frutos e sementes e protege o trato digestivo foi defendida em estudo de 1999 que tratou de desintoxicação e efeitos citoprotetores da geofagia em papagaios. [4]
Atribuição conferida na citação de Severo-Neto (2012) e no título do artigo; o resultado numérico do experimento não foi conferido em texto aberto e por isso não aparece no post. - Em debate: A hipótese das toxinas segue como alternativa discutida: no Peru ela não foi sustentada pelos testes sazonais e de seleção de solo, mas não foi descartada para todas as espécies e locais. [1] [2]
Em Tambopata os dados contrariam a hipótese; ela não foi testada diretamente nos solos do Brasil. - Fato estabelecido: Onze espécies de psitacídeos comeram tronco e folhas da palmeira Attalea butyracea em solo rico em sódio no Peru; o tronco foi comido em 94% dos 387 eventos de forrageio registrados. [5]
- Evidência forte: As espécies que mais comeram palmeira foram as que menos usam colpas de argila, sugerindo estratégias diferentes de obter sódio. [5]
- Fato estabelecido: No sul do Pantanal, Mato Grosso do Sul, foram registrados em setembro de 2010 uma arara-canindé (Ara ararauna) raspando o solo à beira de uma salina, na Fazenda Nhumirim, e um periquito-de-cabeça-preta (Aratinga nenday) engolindo solo, perto do rio Miranda. [4]
Registros pontuais de uma ave cada; não medem a causa. - Fato estabelecido: O autor brasileiro lista as explicações possíveis (trituração, tamponamento ácido, minerais, adsorção de toxinas) como hipóteses ainda não testadas no Pantanal. [4]
Fontes
- British Ornithologists' Union / Wiley — Food availability and breeding season as predictors of geophagy in Amazonian parrots (Ibis, 160: 112-129)
consultada em 11/10/2026 - Association for Tropical Biology and Conservation / Wiley — Avian geophagy and soil characteristics in southeastern Peru (Biotropica, 36: 534-543)
consultada em 11/10/2026 - Association for Tropical Biology and Conservation / Wiley — Parrots take it with a grain of salt: available sodium content may drive collpa (clay lick) selection in southeastern Peru (Biotropica, 41: 279-282)
consultada em 11/10/2026 - Biota Neotropica / SciELO, UFMS — Geofagia em duas espécies de psitacídeos no Pantanal sul, Brasil (Biota Neotropica, 12(2))
consultada em 11/10/2026 - Association for Tropical Biology and Conservation / Wiley — Parrots consume sodium-rich palms in the sodium-deprived landscape of the Western Amazon Basin (Biotropica, 49: 921-931)
consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão