Zoologia
Aranhas-saltadoras têm olhos de altíssima resolução, e a Portia faz desvios que sugerem planejamento de rota
Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026
Aranhas-saltadoras (Salticidae) têm oito olhos, mas dois fazem o trabalho fino: os olhos principais, grandes e voltados para a frente, distinguem pontos separados por apenas 0,04 a 0,1 grau. Os olhos laterais, menores, detectam movimento e orientam o giro do corpo. Em laboratório, a Portia fimbriata, que caça outras aranhas, completou desvios de 1,25 m que começavam com um afastamento da presa.
Os olhos principais (medianos anteriores) têm uma lente fixa à parede do corpo e um tubo ocular longo, com uma segunda lente menor na base. Essa óptica amplia a imagem sobre a retina, que tem formato de bumerangue, mas o campo de visão fica estreito. Para compensar, seis músculos movem a retina dentro do tubo: ela desliza até 50° na horizontal e na vertical e ainda gira. Os três pares de olhos secundários têm campo largo e são sensíveis sobretudo a movimento. Numa sequência típica de caça, a aranha detecta algo se mexendo com os olhos laterais, vira o corpo e examina o alvo com os principais. Essa precisão visual é o ponto de partida para os experimentos de desvio feitos com Portia.
Quando a isca sai do campo de visão
Em 1997, Tarsitano e Jackson montaram dois caminhos de haste metálica, só um deles levando a uma isca (uma aranha morta e seca). Depois de sair da plataforma, a Portia não via mais a isca. Mesmo assim, escolheu o caminho certo mais vezes que o errado em cinco de seis variações do teste.
Dois tipos de olho, duas funções
Nos olhos principais dos Salticidae, o ângulo entre receptores vizinhos é de 0,04 a 0,07°. Nas regiões mais densas dos olhos secundários, é de 0,4 a 0,7°, uma ordem de grandeza maior. Os secundários cobrem um campo largo e funcionam como detectores de movimento. Segundo Morehouse (2020), eles permanecem parados enquanto as retinas dos olhos principais se movem, e por isso o movimento da retina não borra a imagem lateral. Cada olho cumpre a sua tarefa: os laterais avisam, os principais examinam.
O teste de 1994
O aparelho tinha uma plataforma de partida, duas rampas e um poste do qual pendia a isca, uma aranha morta e seca para a Portia. A isca só podia ser alcançada subindo primeiro a uma perna de apoio, ou seja, afastando-se dela. O desvio total media 1.250 mm. Com isca, 7 de 10 aranhas chegaram ao poste; sem isca, nenhuma de 10. Cada fêmea foi testada uma única vez, e todas as que concluíram o trajeto olharam de novo para a isca ao chegar ao topo da perna de apoio.
O teste de 1997
Dessa vez havia dois caminhos de haste metálica, só um levando à isca, sorteada a cada teste. Em 12 montagens, a isca não podia ser vista depois que a aranha deixava a plataforma. Em cinco das seis subprocedimentos, o caminho certo foi escolhido com mais frequência. O trajeto chegava a exigir andar cerca de 180° para longe da isca e passar pelo início do caminho errado. A atividade variou com a hora: entre 11h e 15h, só 5 de 64 aranhas se decidiram por um poste.
O que "planejar" quer e não quer dizer
Os autores de 1994 escreveram que o comportamento sugere que a aranha planejava a rota com antecedência, pois ia direto a uma perna de apoio depois de fixar o olhar nela. Em 1997, a escolha entre rotas fora de vista pareceu mais sofisticada do que se supunha. Os próprios autores, porém, hesitam em equiparar o resultado a desvios de vertebrados, e dizem não saber como a aranha decide continuar sem ver a isca. Os testes são de laboratório, em poucas espécies, e não valem automaticamente para toda a família.
Como sabemos
Números de visão vêm de uma revisão recente em Current Biology e os de comportamento dos textos integrais de 1994 e 1997; o termo "planejamento" é interpretação dos autores e está marcado assim.
Em debate: Hill (1979) concluiu que desvios de salticídeos não exigem insight: a aranha apenas se dirige a objetos intermediários que a aproximam da presa. Tarsitano e Jackson mostraram que a Portia completa desvios que afastam da presa e escolhe entre rotas fora de vista, o que consideram mais sofisticado. Eles próprios evitam comparar de perto com desvios de vertebrados, e a interpretação de planejamento permanece uma inferência a partir do trajeto.
- Fato estabelecido: Aranhas-saltadoras têm oito olhos: um par de olhos principais (medianos anteriores), voltados para a frente, e três pares de olhos secundários. [1] [3]
- Fato estabelecido: Os olhos principais das aranhas-saltadoras resolvem pontos separados por 0,04 a 0,1°, faixa de acuidade que compartilham com vertebrados bem maiores, como pombos, elefantes e cães de colo. [3]
- Fato estabelecido: Nos olhos principais dos Salticidae, o ângulo entre receptores vizinhos é de 0,04 a 0,07°; nas regiões mais densas dos olhos secundários, de 0,4 a 0,7°. [3]
- Consenso científico: A retina do olho principal tem formato de bumerangue e é movida por seis músculos, com deslocamentos de até 50° na horizontal e na vertical e movimentos de torção; as lentes são fixas. [1] [3]
- Consenso científico: Os olhos secundários têm campo de visão amplo, são sensíveis sobretudo a movimento e guiam os giros do corpo e do olhar para objetos de interesse. [1] [3]
- Consenso científico: Numa sequência típica de captura, o salticídeo detecta um objeto em movimento com os olhos secundários, gira para fixá-lo com os olhos principais e só então age conforme seja presa, parceiro ou predador. [1]
Descrição de síntese feita pelos autores de 1994, com base em trabalhos anteriores (Homann, Heil). - Fato estabelecido: Portia fimbriata é um salticídeo de Queensland, Austrália, que invade teias de outras aranhas e se alimenta delas (araneófago). [1] [2]
- Fato estabelecido: Em observações de campo citadas pelos autores, a Portia fimbriata fez desvios longos, de mais de 1 m, alguns começando por um afastamento da presa; o maior registrado foi de 1.270 mm. [1] [2]
Relato de campo de Jackson e Wilcox (1993), citado nos dois artigos; o original não foi aberto. - Fato estabelecido: No teste de 1994, com um desvio total de 1.250 mm que exigia primeiro se afastar da isca, 7 de 10 Portia fimbriata (fêmeas adultas criadas em laboratório) chegaram ao poste da isca quando havia isca e 0 de 10 quando não havia. [1]
- Fato estabelecido: No mesmo teste, 5 das 7 Portia que completaram o desvio foram direto da plataforma a uma das pernas de apoio, e todas se reorientaram para a isca depois de subir ao topo da perna. [1]
- Fato estabelecido: Trite planiceps, salticídeo insetívoro da Nova Zelândia, também completou desvios, mas dependeu do movimento da isca: 8 de 8 completaram quando a isca se mexia a cada reorientação e 0 de 7 quando ela ficou parada. [1]
- Fato estabelecido: No estudo de 1997, com 12 montagens em que a isca ficava fora da vista depois da saída da plataforma, a Portia escolheu o caminho que levava à isca mais vezes que o errado, com significância em 5 das 6 subprocedimentos; os desvios exigiam andar cerca de 180° para longe da isca. [2]
- Fato estabelecido: Das Portia que escolheram o caminho certo em 1997, 35% abandonaram o desvio antes de chegar ao fim; as que escolheram o caminho errado desistiram com mais frequência, quase metade delas no topo do poste. [2]
Os autores dizem que como a aranha decide continuar sem ver a isca não é conhecido. - Fato estabelecido: Em 1997, a tendência de escolher um caminho variou com a hora do dia, com picos de manhã cedo e fim de tarde; entre 11h e 15h, só 5 de 64 aranhas tocaram um poste de apoio. [2]
Os autores relacionam o padrão ao hábito crepuscular da espécie no campo. - Interpretação: Os próprios autores de 1994 interpretaram o comportamento como indício de que a aranha planejava a rota com antecedência, porque ela se dirigia direto a uma perna de apoio depois de fixar os olhos em pontos-chave do aparelho. [1]
Interpretação dos autores ("suggests that the salticid was planning ahead"); o experimento mede o trajeto, não o processo mental.
Fontes
- Behaviour 131: 65-73 (M. S. Tarsitano e R. R. Jackson, 1994), Universidade de Sussex e Universidade de Canterbury — Jumping spiders make predatory detours requiring movement away from prey
consultada em 11/10/2026 - Animal Behaviour 53: 257-266 (M. S. Tarsitano e R. R. Jackson, 1997) — Araneophagic jumping spiders discriminate between detour routes that do and do not lead to prey
consultada em 11/10/2026 - Current Biology 30: R963-R983 (N. I. Morehouse, 2020), Universidade de Cincinnati — Spider eyes (Primer)
consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão