Zoologia

A aranha de teia ouve com a teia: os fios de seda acompanham o movimento do ar causado pelo som

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Aranhas não têm tímpano, mas a Larinioides sclopetarius reage a sons no ar por meio da teia: fios de seda finíssimos se movem quase na mesma velocidade que as partículas de ar, e a aranha sente essa vibração. Em laboratório, 11 de 12 aranhas reagiram a um tom de 200 Hz a 88 dB tocado a 3 m. O resultado vale para uma espécie, com fêmeas e poucos animais.

Som no ar é uma oscilação de pressão e também de movimento das partículas do ar. O tímpano de vertebrados e de alguns insetos responde sobretudo à pressão. Fios muito finos respondem à velocidade das partículas, como os pelos sensoriais de vários artrópodes. Em 2017, Zhou e Miles mediram que um fio de seda de 500 nm segue o ar de 1 Hz a 50 kHz. Em 2022, o grupo mostrou que a teia inteira de Larinioides sclopetarius se move com o ar a 200 Hz e que as aranhas reagem ao som a 3 m. A aranha fica no centro, e as pernas sentiriam a vibração dos fios; essa ligação ainda é hipótese, pois os autores escrevem que os órgãos sensíveis à deformação "presumivelmente" a detectam.

Uma teia de 30 cm numa câmara sem eco

Os experimentos de 2022 usaram aranhas que teceram teias em molduras de madeira de 30 cm por 30 cm, numa câmara anecoica fechada. O alto-falante ficou a 3 m para o som chegar quase como onda plana, e a vibração da teia foi medida com laser, sem tocar nos fios.

Como sabemos: testes que separam o som da vibração por contato

Primeiro, medir: um vibrômetro a laser mostrou a teia seguindo o ar a 200 Hz com quase a mesma velocidade das partículas. Segundo, observar o bicho: em câmara fechada, sem correntes de ar nem vibração do chão, 11 de 12 aranhas reagiram a 88 dB. Terceiro, um controle: um alto-falante minúsculo a 50 mm só fez vibrar a teia, com som no ar abaixo do que a aranha detectaria (menos de 50 dB), e 4 de 12 ainda reagiram. Juntos, apontam a teia como o canal.

Por que um fio de seda acompanha o ar

Num fio muito fino, a força do ar sobre ele pesa mais que a rigidez e a inércia do próprio fio. Por isso o fio se move quase como o ar. O modelo de Zhou e Miles (2017) concorda com medidas em fios de 0,5, 1,6 e 3 µm. A teia reage à velocidade das partículas, como os pelos de insetos, e não à pressão, como um tímpano.

Aranha-saltadora: sem teia de captura, mas com pelos sensíveis

Phidippus audax não tece teia de captura e mesmo assim congelou ao ouvir 80 Hz a 65 dB, com o alto-falante a cerca de 2 m. Em registros neurais, estimular um pelo da pata dianteira ativou células que também respondiam ao som no ar. É outro caminho para o mesmo problema, perceber som sem tímpano, usando estruturas finas que seguem o ar. O estudo é de 2016 e vale aqui como comparação.

O que ainda não está fechado

Os testes usaram fêmeas de uma só espécie, em laboratório, com 12 aranhas por grupo e sons puros de 200 e 1.000 Hz. A localização da direção foi parcial: 5 de 12 viraram para o lado certo. Que o órgão da perna que sente a vibração seja o liriforme é suposição, e a detecção a mais de 10 m é extrapolação. Não se sabe quanto disso vale para teias ao vento, para outras espécies ou para sons reais.

Como sabemos

O mecanismo vem de artigos do mesmo grupo, lidos na íntegra, com amostras pequenas e uma só espécie testada em laboratório.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Outsourced hearing in an orb-weaving spider that uses its web as an auditory sensor
    Zhou, J.; Lai, J.; Menda, G.; Stafstrom, J. A.; Miles, C. I.; Hoy, R. R.; Miles, R. N. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2122789119
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Sensing fluctuating airflow with spider silk
    Zhou, J.; Miles, R. N. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1710559114
  3. Current Biology — Airborne acoustic perception by a jumping spider
    Shamble, P. S.; Menda, G.; Golden, J. R.; Nitzany, E. I.; Walden, K.; Beatus, T.; Elias, D. O.; Cohen, I.; Miles, R. N.; Hoy, R. R. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2016.08.041
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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