Evolução

Aquilégias: nas trocas para polinizadores de língua mais longa, o esporão do néctar tendeu a crescer

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Numa filogenia do gênero Aquilegia (aquilégias ou columbinas), Whittall e Hodges (2007) encontraram tendência significativa de esporões mais longos quando a linhagem passava a polinizadores de língua mais longa. Puzey e colegas (2012) mostraram que o esporão cresce por expansão anisotrópica das células e que a anisotropia explica 99% da variação de comprimento no gênero.

Muitas flores guardam o néctar num esporão, um tubo que sai da pétala; o polinizador só o aproveita se o aparelho bucal for adequado. As aquilégias são polinizadas sobretudo por abelhas grandes, beija-flores ou mariposas-esfinge, e o comprimento do esporão varia junto. A hipótese testada aqui é a das trocas de polinizador: a linhagem passa a depender de outro visitante e o esporão se ajusta a ele. É uma alternativa à corrida coevolutiva que Darwin propôs para a orquídea de Madagascar, tratada em outro post. Anisotropia, em células, é crescer mais numa direção do que nas outras: a célula se alonga, em vez de apenas inchar.

Dois esporões, duas origens

Na família das ranunculáceas, esporões de néctar evoluíram de forma independente duas vezes: uma em Delphinium e outra em Aquilegia. Neste último gênero, a diversificação dos esporões é marcada por trocas frequentes de polinizador no clado norte-americano.

Como sabemos: uma filogenia como teste

Whittall e Hodges usaram uma filogenia de espécies do gênero Aquilegia e perguntaram se o esporão aumentou nos ramos em que o polinizador passou a ter língua mais longa. O resumo do artigo relata tendência significativa nesse sentido e mudança concentrada em eventos de especiação, o que os autores leem como ajuste rápido a picos adaptativos fixados pelo polinizador. É um teste estatístico sobre uma árvore: mostra associação e direção, não demonstra que cada troca causou cada alongamento. Lemos apenas o resumo.

O que acontece dentro da pétala

Puzey e colegas mediram o esporão em tecidos e células e compararam os dados com modelos numéricos. A hipótese antiga de uma zona meristemática que empurraria o crescimento não se sustentou: o esporão cresce por expansão celular anisotrópica, com células que se alongam. Segundo um comentário de Elena Kramer, o esporão se forma em duas fases, uma de divisões localizadas que produz a taça inicial e outra, mais longa, de alongamento, que gera a maior parte do comprimento. A duração do alongamento parece explicar muitas diferenças entre espécies.

Abelha, beija-flor, mariposa: o que as medidas mostram

Numa análise de 28 espécies, flores de abelhas grandes tendem a ser pendentes e de esporão curto, as de beija-flores são vermelhas e de esporão estreitado, e as de mariposas-esfinge são eretas, com esporões longos e finos. Os esporões de abelhas (6 a 25 mm) e de beija-flores (18 a 24 mm) se sobrepõem em parte; os de mariposas chegam a 30 a 38 mm. Abelhas não alcançam o néctar de esporões longos, e mariposas só polinizam bem flores eretas de esporão longo, um filtro que liga a troca de polinizador ao comprimento.

Onde ainda há debate

O resumo de 2007 já registra que o modelo de corrida coevolutiva de Darwin continua contestado. Quanto às células, a generalização tem limite: em Aquilegia rockii o esporão varia de 1 a 18 mm dentro da espécie, e Zhou e colegas sugerem que o número de células, e não a anisotropia, responde por essa variação. O valor de 99% vale para a variação entre espécies do gênero; dentro de uma espécie, a história celular pode ser outra.

Como sabemos

Os resultados centrais vêm de dois resumos (Whittall e Hodges, Puzey e colegas) e são completados por dois textos abertos lidos por inteiro.

Em debate: Corrida coevolutiva (planta e polinizador se alongando em sequência) contra trocas sucessivas de polinizador: o resumo de Whittall e Hodges (2007) trata o modelo da corrida como contestado e propõe as trocas como alternativa.

Em debate: Base celular do alongamento: expansão anisotrópica explica a variação entre espécies de Aquilegia (Puzey e colegas, 2012), mas o número de células parece explicar a variação dentro de Aquilegia rockii (Zhou e colegas, 2019).

Fontes

  1. Nature — Pollinator shifts drive increasingly long nectar spurs in columbine flowers
    Whittall, J. B.; Hodges, S. A. · 2007 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature05857
  2. Proceedings of the Royal Society B — Evolution of spur-length diversity in Aquilegia petals is achieved solely through cell-shape anisotropy
    Puzey, J. R.; Gerbode, S. J.; Hodges, S. A.; Kramer, E. M.; Mahadevan, L. · 2012 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2011.1873
  3. Journal of Experimental Botany — My favourite flowering image: an Aquilegia flower
    Kramer, E. M. · 2020 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/jxb/erz035
  4. Annals of Botany — Floral syndromes in Aquilegia (Ranunculaceae) are associated with nectar- but not pollen-collecting pollinators
    Hawranek, A.-S.; von Balthazar, M.; Chartier, M.; Schönenberger, J. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/aob/mcaf333
  5. Plant Diversity — Cell number explains the intraspecific spur-length variation in an Aquilegia species
    Zhou, Z.-L.; Duan, Y.-W.; Luo, Y.; Yang, Y.-P.; Zhang, Z.-Q. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.pld.2019.06.001
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

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