Zoologia

O cânone de Morgan: por que cientistas hesitam em dizer que um animal "pensou"

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Inteligência animal

O cânone de Morgan, formulado em 1894 pelo psicólogo Lloyd Morgan, manda não explicar o comportamento de um animal por uma faculdade mental "superior" quando uma "inferior" bastar. Não é o mesmo que preferir a explicação mais simples, e hoje é discutido: filósofos veem a regra sem justificativa geral e propõem comparar explicações rivais com testes que prevejam resultados diferentes.

Antropomorfismo é atribuir a animais, ou a coisas, características psicológicas humanas, como intenções, emoções e raciocínio. O erro oposto, recusar estados mentais a animais que de fato os têm, foi batizado por Frans de Waal de "antropo-negação". No fim do século XIX, Darwin e George Romanes defendiam a continuidade mental entre humanos e outros animais e usavam muitas anedotas. Morgan reagiu a essa tese, e seu cânone passou a ser usado contra anedotas e antropomorfismo. Hoje a disputa costuma opor o aprendizado associativo, que liga eventos que ocorrem juntos, a explicações mais "cognitivas", como entender as necessidades de outro indivíduo.

Uma regra aceita, mas com ressalvas

Numa pesquisa com 210 pesquisadores de cognição animal, mais de 70% apoiaram o cânone de Morgan como princípio útil, mas muitos fizeram ressalvas nas respostas livres. O princípio segue ensinado, embora filósofos o critiquem.

O que o cânone diz e o que não diz

Na versão de 1894, Morgan escreveu que uma ação não deve ser interpretada como resultado de uma faculdade psíquica superior se puder ser interpretada como resultado de uma que esteja mais abaixo na escala psicológica. Costuma ser confundido com a navalha de Occam, mas trata de tipos de explicação, não do número de entidades postuladas, e o próprio Morgan avisava que simplicidade não é critério de verdade. Segundo Bruni e colegas, em 1903 ele ainda defendia a indução subjetiva e a objetiva como complementares.

Como sabemos: duas explicações, duas previsões

Heyes descreve um teste com seis chimpanzés que escolhiam entre fichas: uma dava comida só a eles, a outra também a um parceiro na jaula ao lado. Eles preferiram a ficha dupla. Os autores do estudo viram sensibilidade ao outro; Heyes propõe que o ruído do papel que embrulhava a banana do parceiro virou recompensa por condicionamento. As duas ideias preveem coisas diferentes: pela explicação do ruído, o viés não mudaria com o parceiro, e não se achou efeito de parentesco ou afinidade. Mas o teste pode ter sido pouco sensível, e ela sugere novos controles.

Por que o cânone é criticado

Segundo Heyes, Morgan não justificou bem a regra, e argumentos evolutivos ou de simplicidade não sustentam preferir sempre a explicação associativa. Mercado acrescenta que os dados costumam admitir várias interpretações e levanta a possibilidade de que a regra faça pesquisadores subestimarem os animais, algo que o texto dele não mede. Fitzpatrick propõe uma regra simétrica: não endossar uma explicação, alta ou baixa, quando a evidência não dá razão para preferi-la às rivais.

Do cânone ao antropomorfismo controlado

Se rejeitar o antropomorfismo também gera erros, o que fazer? Burghardt propõe o antropomorfismo crítico: usá-lo para gerar ideias de experimentos e checá-las com história natural, fisiologia e descrições cuidadosas do comportamento. Arbilly e Lotem sugerem o antropomorfismo construtivo: tomar a cognição humana como modelo para formular hipóteses sobre animais, sem a meta de elevá-los, e possivelmente ressaltando diferenças. São propostas de método, ainda em debate.

Como sabemos

A história e as formulações do cânone estão bem apoiadas em textos de acesso aberto, mas várias palavras de Morgan e de outros autores chegam por segunda mão e duas fontes foram lidas só em parte.

Em debate: Se o cânone de Morgan deve continuar como regra de método. Filósofos como Fitzpatrick e Starzak (via Mercado e Heyes) dizem que não há justificativa geral para preferir sempre a explicação "mais baixa"; uma pesquisa com 210 pesquisadores mostra que mais de 70% ainda o consideram útil, com ressalvas. Parte dos autores propõe trocar a regra por evidencialismo ou por um antropomorfismo controlado por testes.

Fontes

  1. Frontiers in Psychology (Universidade de Messina) — Anti-anthropomorphism and Its Limits
    Bruni, D.; Perconti, P.; Plebe, A. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fpsyg.2018.02205
  2. Philosophical Transactions of the Royal Society B — Simple minds: a qualified defence of associative learning
    Heyes, C. · 2012 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rstb.2012.0217
  3. Frontiers in Psychology (Universidade de Buffalo) — Commentary: Interpretations without justification: a general argument against Morgan's Canon
    Mercado, E. III · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fpsyg.2016.00452
  4. Proceedings of the Royal Society B — Constructive anthropomorphism: a functional evolutionary approach to the study of human-like cognitive mechanisms in animals
    Arbilly, M.; Lotem, A. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2017.1616
  5. PLOS ONE (Universidade de Cambridge) — The hidden side of animal cognition research: Scientists' attitudes toward bias, replicability and scientific practice
    Farrar, B. G.; Ostojić, L.; Clayton, N. S. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0256607
Histórico de alterações
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