História do Brasil

Canudos resistiu a três expedições militares em 1896 e 1897 e foi destruída pela quarta, em outubro de 1897

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026

Em 1893, o pregador peregrino Antônio Conselheiro fixou milhares de seguidores em Canudos, no sertão da Bahia, que passou a se chamar Belo Monte. Entre novembro de 1896 e outubro de 1897, o governo republicano enviou quatro expedições militares contra o arraial. As três primeiras fracassaram; a quarta, que chegou a reunir de 8 a 10 mil homens, tomou e incendiou Belo Monte em 5 de outubro de 1897. As estimativas de mortos vão de cerca de 10 mil, entre os conselheiristas, a mais de 20 mil.

Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em 1830, em Quixeramobim (CE), e a partir dos anos 1870 peregrinou pelo sertão da Bahia e de Sergipe com um grupo de devotos que construía e reparava igrejas, açudes e cemitérios. A República trouxe a separação entre Igreja e Estado, o registro civil e novos impostos, que chocaram o catolicismo popular dos sertanejos. Em Canudos, o arraial funcionava como comunidade autônoma, sem proprietário, padre ou delegado. O primeiro confronto armado nasceu de um boato, em 1896, sobre a entrega de madeira encomendada a Juazeiro. Para a elite republicana, Canudos virou símbolo de monarquismo e atraso; Euclides da Cunha, que acompanhou a quarta expedição, reconheceu em Os Sertões que não havia conspiração monárquica.

Herói da Pátria 122 anos depois

Em 14 de maio de 2019, a Lei 13.829 incluiu Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, que fica no Panteão da Pátria, em Brasília.

O homem e a comunidade

Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em 1830, no Ceará, e a partir de 1870 peregrinou pelo interior da Bahia e de Sergipe como pregador, o Conselheiro, com devotos que erguiam igrejas e cemitérios. Em 1882, o arcebispo da Bahia o proibiu de pregar nas igrejas, por não ser padre. Em 1893, fixou-se em Canudos, que o Museu da República descreve como comunidade autônoma, sem proprietário, padre ou delegado. A população chegou a ser estimada em 15 mil e, segundo o CPDOC, até 30 mil, e o arraial teve 5.200 casas.

Por que o Estado atacou

A República trouxe a separação entre Igreja e Estado, o registro civil e novos impostos, o que entrou em choque com o catolicismo popular do sertão. Em 1893, Conselheiro liderou protestos em que foram queimados editais de impostos republicanos. A Igreja desconfiava da autonomia religiosa do arraial, os fazendeiros perdiam mão de obra e políticos locais temiam perder clientela. A elite política via Canudos como o polo monárquico e bárbaro a ser exterminado, leitura que Euclides da Cunha depois rejeitaria.

As quatro expedições

O primeiro confronto veio em 1896, depois de um boato sobre madeira encomendada a Juazeiro. A primeira expedição (113 homens) recuou em Uauá; a segunda (609 soldados) recuou em janeiro de 1897; a terceira (1.300 soldados) foi derrotada, e seu comandante, Moreira César, morreu em 4 de março. A quarta, com 5 mil homens no começo e até 10 mil depois, cercou o arraial, bombardeou a igreja velha em 24 de agosto e tomou Belo Monte em 5 de outubro.

Depois da guerra

Em 5 de outubro de 1897 os soldados encontraram quatro resistentes e incendiaram o arraial. Fotografias de Flávio de Barros registraram as ruínas e o corpo exumado de Conselheiro. Livros de 1899 denunciaram a degola de prisioneiros. Em 1902, Euclides da Cunha publicou Os Sertões, escrito a partir da campanha, em que denunciou o massacre e reconheceu que não havia conspiração monárquica. Em 2019, uma lei incluiu Conselheiro no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

Como sabemos

Cronologia conferida na pesquisa do Museu da República (Ibram) e no verbete do CPDOC/FGV; números de mortos são estimativas assinaladas.

Em debate: Não se sabe quantos morreram: o Museu da República cita cerca de 10 mil conselheiristas e 5 mil soldados; o CPDOC, mais de 20 mil mortos; e o tamanho da população de Belo Monte chegou a ser estimado em 30 mil. Todos são estimativas.

Em debate: A data da morte de Conselheiro varia entre os textos: a cronologia do Museu da República indica 22 de setembro de 1897, e uma notícia da Câmara dos Deputados diz que ele morreu dias antes do fim da guerra.

Em debate: As elites republicanas viam Canudos como foco de conspiração monárquica. Euclides da Cunha, que acompanhou a campanha, concluiu em Os Sertões que não havia monarquismo organizado nem apoio estrangeiro.

Em debate: A degola de prisioneiros foi denunciada por livros e por Euclides, mas não há contagem documentada de vítimas dessas execuções.

Fontes

  1. Museu da República (Ibram/MinC) — Cronologia resumida da Guerra de Canudos
    consultada em 04/10/2026
  2. CPDOC/FGV, Atlas Histórico do Brasil — Guerra de Canudos
    consultada em 04/10/2026
  3. Portal da Câmara dos Deputados — Antônio Conselheiro entra para o panteão de heróis da pátria
    consultada em 04/10/2026
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