Ciências da Terra

Anomalia do Atlântico Sul: a mancha fraca do campo magnético que cresce, se divide e afeta satélites

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

A Anomalia do Atlântico Sul é uma região entre a África e a América do Sul onde o campo magnético da Terra é mais fraco e partículas aprisionadas descem mais perto da superfície. Entre 1970 e 2020 o mínimo caiu de cerca de 24.000 para 22.000 nT, e a região segue se alargando e ganhou um segundo mínimo a sudoeste da África. Ela provoca falhas na eletrônica de satélites; uma medição a 13 km de altitude não achou aumento de radiação.

O campo magnético da Terra é gerado pelo ferro líquido do núcleo externo e, de longe, lembra o de um ímã de barra (um dipolo), inclinado em relação ao eixo de rotação. O campo real, porém, tem partes que o dipolo não explica, as chamadas componentes não dipolares. A principal delas na superfície é a Anomalia do Atlântico Sul (SAA, na sigla em inglês): uma região de campo de baixa intensidade e grande variação de direção, que cobre da África meridional à América do Sul e influencia fortemente o campo medido no Brasil. Intensidade de campo se mede em nanotesla (nT). Como o campo é o escudo que desvia e prende partículas do vento solar nos cinturões de Van Allen, onde ele é mais fraco o cinturão interno chega mais baixo, e satélites em órbita baixa atravessam partículas energéticas com mais frequência. Este post trata do que é a anomalia e de como ela evolui; a origem do campo e as inversões têm posts próprios.

A anomalia aparece até em uma ilha brasileira no meio do oceano

Um estudo de 2024, com autores de universidades brasileiras, usou lavas da Ilha da Trindade (20°30'S, 29°22'O), para ver se o campo da região já era anômalo há milhões de anos.

O que é e de onde vem: um campo que não é só um ímã de barra

Se o campo fosse um dipolo perfeito no centro da Terra, a intensidade dependeria só da latitude. Não é assim: há componentes não dipolares, e a maior na superfície é a anomalia, entre a África e a América do Sul. A NASA a atribui à inclinação do eixo magnético e ao fluxo de metal fundido no núcleo externo. Em modelos, o campo fraco vem de regiões de fluxo reverso na fronteira núcleo-manto, onde as linhas voltam para dentro do núcleo. Quem não conhece o geodínamo pode começar pelo post sobre o núcleo líquido.

Como sabemos: satélites, observatórios e modelos de campo

Hoje o acompanhamento vem dos três satélites Swarm da ESA, somados a missões anteriores e a observatórios em solo, ajustados a um modelo como o CHAOS-7. O modelo permite mapear a intensidade na superfície e projetar o campo até a fronteira com o manto. O limite: o que se vê no núcleo é inferido, e a previsão de décadas à frente depende de modelos de dinâmica do núcleo, não de medição.

Quanto tempo dura: o que o passado diz sobre o futuro

A anomalia atual cresce em décadas, mas uma região de campo anômalo no Atlântico Sul parece existir há muito mais tempo. Lavas da Ilha da Trindade, registram comportamento anômalo do campo; o estudo de 2024 sugere que isso persiste por 10 milhões de anos e liga a causa, como hipótese, a heterogeneidades do núcleo interno. Essa persistência não prevê o tamanho da anomalia daqui a cem anos: é um padrão médio de longo prazo, e o texto da ESA de 2020 considera a queda atual dentro da flutuação normal.

O que faz: falhas em órbita baixa, nada medido em voos comerciais

Em órbita baixa, partículas energéticas do cinturão interno atingem a eletrônica e causam eventos de partícula única; o Swarm os registra concentrados na anomalia. Operadores desligam componentes não essenciais ao cruzá-la. No avião, a questão é outra: partículas de energia usual do cinturão não chegam à atmosfera inferior, e o voo Atlantic Kiss, a 13 km, não achou dose adicional. O resultado é de um voo em tempo espacial calmo; o estudo chama de lenda urbana a ideia de dose muito maior nos voos sobre o Atlântico Sul.

Como sabemos

Medidas e efeitos em satélites são bem documentados; a origem profunda e a persistência por milhões de anos são interpretações de modelos.

Fontes

  1. Agência Espacial Europeia (ESA) — Swarm reveals growing weak spot in Earth’s magnetic field
    ESA · 2025-10-13 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. Agência Espacial Europeia (ESA) — Swarm probes weakening of Earth’s magnetic field
    ESA · 2020-05-20 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. NASA — NASA Researchers Track Slowly Splitting ‘Dent’ in Earth’s Magnetic Field
    NASA Goddard Space Flight Center · 2020-08-17 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. Earth, Planets and Space — The CHAOS-7 geomagnetic field model and observed changes in the South Atlantic Anomaly
    Finlay, C. C.; Kloss, C.; Olsen, N.; Hammer, M. D.; Tøffner-Clausen, L.; Grayver, A.; Kuvshinov, A. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1186/s40623-020-01252-9
  5. Scientific Reports — Impact of the South Atlantic Anomaly on radiation exposure at flight altitudes during solar minimum
    Meier, M. M.; Berger, T.; Jahn, T.; Matthiä, D.; Plettenberg, M. C.; Scheibinger, M.; Schennetten, K.; Wirtz, M. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-36190-5
  6. Nature Communications — Long-term persistency of a strong non-dipole field in the South Atlantic
    de Oliveira, W. P.; Hartmann, G. A.; Terra-Nova, F.; Pasqualon, N. G.; Savian, J. F.; Lima, E. F.; da Luz, F. R.; Trindade, R. I. F. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-024-53688-2
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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