Evolução

Após Irma e Maria, lagartos sobreviventes tinham almofadas dos dedos maiores e patas dianteiras mais longas

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Evolução biológica

Em 2017, pesquisadores mediram o lagarto Anolis scriptus em duas ilhotas de Turks e Caicos antes dos furacões Irma e Maria e de novo semanas depois. Os sobreviventes tinham almofadas dos dedos maiores, nos pés dianteiros e traseiros, e ossos dianteiros relativamente longos, mas patas traseiras mais curtas: não foi simplesmente "patas maiores". Os autores veem seleção natural como causa provável; o mecanismo ainda não foi testado em tempestade real.

Anolis é um gênero de lagartos com centenas de espécies no Caribe e nas Américas, bem estudado por biólogos. Seus dedos têm almofadas especializadas que ajudam a agarrar superfícies. "Relativo" quer dizer corrigido pelo tamanho do corpo: compara-se o dedo ou o osso de lagartos de tamanhos diferentes. A equipe de Colin Donihue já estava nas ilhotas Pine Cay e Water Cay medindo lagartos antes dos furacões, então pôde comparar a população antes e depois. A pergunta é o que sobrou da população, não o que cada indivíduo viveu. Como a seleção natural funciona em geral está nos posts ligados abaixo.

Um estudo que nasceu de outro

A medição de base não foi planejada para estudar furacões: servia a um projeto de conservação que previa remover ratos invasores das ilhotas. Irma chegou poucos dias depois, e a equipe voltou para comparar.

Como sabemos: medidas antes e depois, por acaso

Entre 28 de agosto e 4 de setembro de 2017, a equipe mediu lagartos nas duas ilhotas para ter uma linha de base de um projeto de conservação. Irma atingiu as ilhas em 8 de setembro e Maria deu um golpe de raspão em 22 de setembro. Em outubro os pesquisadores voltaram e mediram de novo, com o mesmo método. O desenho compara populações antes e depois, não os mesmos animais marcados, e as duas ilhotas deram resultados paralelos.

O que mudou e o que não mudou

A resposta à pergunta é parcial. As almofadas dos dedos ficaram relativamente maiores, nos pés dianteiros e traseiros, e os ossos dianteiros relativamente mais longos. Mas os membros traseiros ficaram mais curtos, e o tamanho do corpo também diferiu. Não houve um aumento geral das patas. Medir 'agarre' diretamente exige experimentos com vento, como os feitos em outras espécies, em que o contato das patas traseiras se perde primeiro.

A mudança durou e aparece em outras ilhas

Em abril de 2019, as almofadas ainda eram maiores que as de antes dos furacões, inclusive nos lagartos que eclodiram depois da tempestade, filhos dos sobreviventes. Em 12 ilhas de Anolis sagrei, quanto mais furacões nos 70 anos anteriores, maiores as almofadas. Isso é correlação entre ilhas, não prova de causa, e por que o traço não voltou ao valor anterior ainda não é bem explicado.

O que ainda é incerto

O mecanismo não foi observado: não se sabe se lagartos realmente ficam agarrados ao poleiro durante tempestades, ou se fogem para abrigos. Em Porto Rico, em floresta fechada, Anolis gundlachi não mostrou o padrão esperado depois dos mesmos furacões. E a hereditariedade das almofadas foi inferida, sem dados genéticos nos estudos de 2018 e 2020. O resultado é bem apoiado em A. scriptus, mas não vale automaticamente para todos os lagartos.

Como sabemos

O padrão em A. scriptus é bem documentado em fontes abertas, mas o artigo de 2018 só foi lido no resumo e o mecanismo segue em debate.

Em debate: Donihue et al. favorecem o agarre ao poleiro durante o vento; Huey e Grant questionam se os lagartos ficam expostos em tempestades e apontam a hipótese alternativa da estrutura da vegetação.

Fontes

  1. Nature — Hurricane-induced selection on the morphology of an island lizard
    Donihue, C. M.; Herrel, A.; Fabre, A.-C.; Kamath, A.; Geneva, A. J.; Schoener, T. W.; Kolbe, J. J.; Losos, J. B. · 2018 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-018-0352-3
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences — Hurricane effects on Neotropical lizards span geographic and phylogenetic scales
    Donihue, C. M.; Kowaleski, A. M.; Losos, J. B.; Algar, A. C.; Baeckens, S.; et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2000801117
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences — Lizards, toepads, and the ghost of hurricanes past
    Huey, R. B.; Grant, P. R. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2006297117
  4. Biology Letters — No evidence of predicted phenotypic changes after hurricane disturbance in a shade-specialist Caribbean anole
    Acevedo, M. A.; Clark Jr, D.; Fankhauser, C.; Toohey, J. M. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsbl.2022.0152
  5. Proceedings of the National Academy of Sciences — Morphological and genomic responses to hurricanes arise and persist during a biological invasion
    Kolbe, J. J.; Giery, S. T.; Petherick, A. S.; Losos, J. B.; et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2517322122
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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