História da África

Em 1960, 17 países africanos se tornaram independentes, e o ano ficou conhecido como o Ano da África

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026

Em 1960, catorze territórios da África francesa ao sul do Saara, o Congo Belga, a Somália sob administração italiana e a Nigéria britânica se tornaram independentes: 17 países num único ano. Camarões abriu a série em 1º de janeiro; a Mauritânia a fechou em 28 de novembro. Em 14 de dezembro, a Assembleia Geral da ONU, já com 16 desses novos membros africanos, aprovou a declaração que pedia o fim rápido e incondicional do colonialismo.

As independências não começaram em 1960. Gana tinha se tornado independente em 1957, e a Guiné em 1958, depois de votar "não" à Comunidade proposta pelo general De Gaulle. Desde o pós-guerra, partidos, sindicatos, estudantes e intelectuais africanos pressionavam pelo fim do domínio colonial, e a ONU se tornara uma tribuna para o direito dos povos à autodeterminação. Em fevereiro de 1960, o primeiro-ministro britânico Harold Macmillan falou no Parlamento da África do Sul do "vento da mudança" que soprava no continente. Na África francesa, o processo foi rápido: Camarões e Togo em janeiro e abril, Mali e Madagascar em junho, e quase todos os outros em agosto. O Congo deixou de ser colônia belga em 30 de junho, e a Nigéria se tornou independente do Reino Unido em 1º de outubro.

Um país que nasceu da união de dois

A Somália de 1960 juntou dois territórios coloniais. A Somalilândia britânica deixou de ser protetorado em 26 de junho; cinco dias depois, em 1º de julho, uniu-se à Somália que a Itália administrava como território sob tutela da ONU, formando a República Somali.

Antes de 1960

O caminho começou bem antes. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a ONU oferecia uma tribuna às reivindicações baseadas no direito dos povos à autodeterminação. Na África francesa, deputados africanos eleitos em Paris, partidos como o Rassemblement Démocratique Africain, fundado em Bamaco em 1946, estudantes e intelectuais pressionavam contra o estatuto colonial. Gana, sob Kwame Nkrumah, tornou-se independente em 1957. Em 1958, no referendo de 28 de setembro sobre a Comunidade proposta por De Gaulle, a Guiné de Sékou Touré foi o único território a votar não, e ganhou a independência imediatamente.

A corrida de 1960 na África francesa

Camarões e Togo, territórios sob tutela da ONU administrados pela França, já eram Estados autônomos desde 1956–1957 e se tornaram independentes em janeiro e abril de 1960. Em junho, Paris aceitou a independência da Federação do Mali, que unia o Senegal e o antigo Sudão francês, e de Madagascar, mediante acordos de cooperação. Em agosto, vieram os quatro territórios da antiga África Equatorial Francesa (Chade, República Centro-Africana, Congo e Gabão) e os países da Entente liderada por Félix Houphouët-Boigny: Costa do Marfim, Daomé, Alto Volta e Níger. A federação malinesa se desfez no mesmo mês. A Mauritânia completou a lista em 28 de novembro.

Congo, Somália e Nigéria

Fora do império francês, três independências marcaram o ano. O Congo deixou de ser colônia belga em 30 de junho, com Joseph Kasavubu na presidência. A Somalilândia britânica deixou de ser protetorado em 26 de junho e, em 1º de julho, uniu-se à Somália que a Itália administrava como território sob tutela da ONU, formando a República Somali. A Federação da Nigéria, até então sob soberania britânica, tornou-se independente em 1º de outubro. Os Estados Unidos reconheceram esses novos Estados já na data da independência, sinal do peso que a descolonização africana ganhava na política internacional.

A ONU muda de rosto

Dezesseis dos novos Estados africanos entraram na ONU ainda em 1960, a tempo de participar do debate sobre o colonialismo aberto em setembro, quando o líder soviético Nikita Khrushchev propôs uma declaração sobre o tema. O texto que venceu, porém, foi outro: um projeto apresentado pelo Camboja em nome de 26 países asiáticos e africanos, que acabou patrocinado por 43 delegações. Aprovada em 14 de dezembro por 89 votos a 0, com 9 abstenções, a Resolução 1514 declarou que a sujeição de povos à dominação estrangeira nega direitos humanos fundamentais, afirmou que a falta de preparo nunca deveria servir de pretexto para adiar independências e pediu o fim rápido e incondicional do colonialismo.

Um processo, não um presente

O nome Ano da África resume uma virada, mas pode dar a impressão de que a independência foi concedida de uma vez. Não foi assim. Houve repressão violenta em Madagascar, em 1947, e em Camarões, a partir de 1955. Só em 1960, líderes africanos se reuniram em conferências em Túnis, Acra, Conacri, Adis Abeba e Léopoldville. As independências francesas vieram acompanhadas de acordos de cooperação que mantiveram forte influência de Paris; os países da Entente só os assinaram em abril de 1961. E boa parte do continente ainda esperaria: as demais independências se estenderam de 1961 a 1994.

Como sabemos

Número de países, datas e votação da ONU conferidos em arquivo nacional francês, em documentos da ONU e no Office of the Historian dos EUA.

Em debate: A contagem de 17 depende de critérios: a Somália resulta da união de dois territórios (britânico e sob tutela italiana) e a Federação do Mali se dividiu em agosto em Senegal e Mali; a contagem usual considera Senegal e Mali separadamente e a Somália como um país.

Em debate: Historiadores lembram que 1960 foi parte de um processo mais longo de lutas e negociações, e não uma concessão súbita: houve violência colonial em Madagascar (1947) e Camarões (desde 1955), e as independências francesas vieram com acordos de cooperação que mantiveram forte influência da França.

Fontes

  1. FranceArchives (Service interministériel des Archives de France) — Indépendances de l'Afrique francophone
    consultada em 03/10/2026
  2. Nações Unidas — Growth in United Nations membership
    consultada em 03/10/2026
  3. United Nations Audiovisual Library of International Law — Declaration on the Granting of Independence to Colonial Countries and Peoples — procedural history
    consultada em 03/10/2026
  4. Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR) — Declaration on the Granting of Independence to Colonial Countries and Peoples
    consultada em 03/10/2026
  5. Office of the Historian, Departamento de Estado dos EUA — Cameroon — Countries
    consultada em 03/10/2026
  6. Office of the Historian, Departamento de Estado dos EUA — Democratic Republic of the Congo — Countries
    consultada em 03/10/2026
  7. Office of the Historian, Departamento de Estado dos EUA — Somalia — Countries
    consultada em 03/10/2026
  8. Office of the Historian, Departamento de Estado dos EUA — Nigeria — Countries
    consultada em 03/10/2026
  9. Office of the Historian, Departamento de Estado dos EUA — Mauritania — Countries
    consultada em 03/10/2026
  10. Origins: Current Events in Historical Perspective (Ohio State University e Miami University) — The Year of Africa
    consultada em 03/10/2026
Histórico de alterações
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