Paleontologia

Anfíbios do Permiano no Sul do Brasil, com crânios de até 58 cm: o que a Formação Rio do Rasto mostra

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Na Formação Rio do Rasto, do Permiano Médio a Superior, a bacia do Paraná guarda temnospôndilos, anfíbios extintos. O maior crânio conhecido de Australerpeton cosgriffi, de focinho longo, mede 58 cm. Como o que resta são fragmentos, as espécies se distinguem por detalhes da base do crânio e da mandíbula: assim se reconheceu Parapytanga catarinensis, espécie nova, a partir de um esqueleto incompleto.

Temnospôndilos (Temnospondyli) são um grupo de anfíbios extintos; as fontes os tratam como anfíbios. A Formação Rio do Rasto, unidade de rochas da bacia do Paraná, tem dois membros: Serrinha, abaixo, e Morro Pelado, acima. Quase nunca aparece um animal inteiro: o material costuma ser de ossos soltos, pedaços de crânio e de mandíbula. Os paleontólogos comparam a forma dos ossos, a ornamentação da superfície e as suturas (as linhas onde um osso encosta no outro) com as de espécies já descritas. A extinção do fim do Permiano tem artigo próprio, e este trata de uma fauna anterior a ela.

Um nome tupi para a cor da rocha

Parapytanga, o gênero descrito em 2014, vem do tupi e quer dizer rio vermelho. Os autores escolheram o nome pela cor vermelha da rocha em que o fóssil estava, depositada em ambiente de rio e lago.

Como sabemos: dar nome a uma espécie com pedaços

O exemplar de Parapytanga reúne parte do teto do crânio, a base do crânio, uma hemimandíbula, vértebras, costelas, um fêmur e escamas, todos desarticulados. Os autores o compararam com temnospôndilos de outras regiões, sobretudo os rinesuquídeos do Karoo, na África do Sul, e achou-se uma combinação de traços que nenhum deles tinha: o epipterigoide (osso da lateral da caixa craniana) robusto e alongado e as bolsas musculares do parasfenoide (osso do palato) mais fundas. Com apenas um exemplar, a espécie depende desses poucos detalhes.

O que um fragmento permite dizer, e o que não permite

Em outro afloramento, no Paraná, apareceram três fragmentos de mandíbula, seis peças de vértebras, uma costela, uma interclavícula e pontas de ulna e fêmur, sem sinal de que fossem de um mesmo animal. Pela forma das peças, deu para dizer que eram de temnospôndilos; sem crânio, não deu para dizer qual espécie. É o limite do método: quanto menos do crânio, menos a identificação se sustenta.

Tamanho: um crânio de 58 cm não é o animal inteiro

O recorde de A. cosgriffi é um crânio de 58 cm de comprimento, com mandíbula, achado no Paraná. O grau de ossificação mostra que era um adulto maduro. Os autores propõem que dois traços do palato, vistos só nele, surjam tarde no desenvolvimento. O comprimento do corpo não foi estimado nas fontes lidas, e por isso este artigo dá o tamanho do crânio, e não do animal. O exemplar anterior mais citado tinha um focinho que indicava crânio de cerca de 50 cm.

Rios, lagos de vida curta e um clima que ficou mais seco

As camadas de onde vêm esses fósseis são de lagos, rios e dunas de vento. O exemplar de 58 cm foi achado em lama avermelhada, depositada devagar em um leque terminal de rio ou lago efêmero, e a parte alta da formação marca a fase mais árida da sequência. A idade, porém, é discutida: estudos mais antigos falam em Permiano Superior, e os mais novos indicam Permiano Médio para ao menos parte da formação. Os nomes dos intervalos aparecem nas fontes; os números em milhões de anos, não.

Fósseis do Rio do Rasto e a Pangeia

No Permiano os continentes estavam reunidos na Pangeia, e a semelhança entre faunas de lados diferentes sugere ligação entre o norte e o sul. Cisneros e colegas (2012) usaram um dinocéfalo do Rio do Rasto para defender uma conexão sem barreiras; Strapasson e colegas veem em Parapytanga um indício a mais, com a ressalva dos dados ausentes. Na região ocorre também Konzhukovia sangabrielensis, de família aparentada a formas russas, segundo Azevedo e colegas. É hipótese, apoiada em poucas espécies.

Como sabemos

Medidas, descrições e ambiente vêm de cinco artigos lidos, com trechos conferidos; classificação, idade e ligação com a Pangeia são debatidas, e a espécie nova tem um só exemplar.

Em debate:

Em debate:

Fontes

  1. Acta Palaeontologica Polonica — On a new stereospondylomorph temnospondyl from the Middle-Late Permian of Southern Brazil
    Strapasson, A.; Pinheiro, F. L.; Soares, M. B. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.4202/app.00059.2014
  2. Revista Brasileira de Paleontologia (Sociedade Brasileira de Paleontologia) — Temnospondyl remains from the Late Permian Rio do Rasto Formation (Paraná Basin) of Brazil
    Ramos, B. D.; Vega, C. S. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.4072/rbp.2011.1.07
  3. Revista Brasileira de Paleontologia (Sociedade Brasileira de Paleontologia) — A new specimen of Australerpeton cosgriffi Barberena, 1998 (Stereospondyli: Rhinesuchidae) from the Middle/Upper Permian Rio do Rasto Formation, Paraná Basin, Brazil
    Azevedo, K. L.; Vega, C. S.; Soares, M. B. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.4072/rbp.2017.3.05
  4. PLOS ONE — A New Dicynodont (Therapsida: Anomodontia) from the Permian of Southern Brazil and Its Implications for Bidentalian Origins
    Boos, A. D. S.; Kammerer, C. F.; Schultz, C. L.; Soares, M. B.; Ilha, A. L. M. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0155000
  5. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Carnivorous dinocephalian from the Middle Permian of Brazil and tetrapod dispersal in Pangaea
    Cisneros, J. C.; Abdala, F.; Atayman-Güven, S.; Rubidge, B. S.; Şengör, A. M. C.; Schultz, C. L. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1115975109
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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