Grandes descobertas
Em 1846, uma cirurgia com éter em Boston abriu a era da anestesia, mas a demonstração foi imperfeita
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
Em 16 de outubro de 1846, no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, William Morton aplicou éter ao paciente Edward Gilbert Abbott enquanto o cirurgião John Collins Warren operava uma lesão sob sua mandíbula. A cena é lembrada como o início da anestesia moderna. Mas os registros do hospital mostram um quadro menos redondo: a anestesia foi incompleta, e a cirurgia não resolveu o problema do paciente.
Antes do éter, a velocidade era a maior virtude do cirurgião, e a dor limitava o que se podia operar. A demonstração de 1846 tem sido contada como a retirada de um tumor sem dor. O estudo dos registros originais, publicado em 2022, mostra outra coisa: a operação era uma tentativa de ligar o suprimento de sangue de uma malformação linfovascular congênita sob a mandíbula, e a massa continuava igual quando Abbott teve alta, em 7 de dezembro. O próprio paciente se mexeu e emitiu sons durante o procedimento, mas depois disse que sentira apenas uma sensação de raspagem, sem dor. O que consolidou o éter foram os usos seguintes, relatados num artigo de 18 de novembro de 1846 do cirurgião Henry Bigelow. Em 19 de dezembro de 1846, a técnica chegou a Londres.
A frase que não é de 1846
A célebre declaração atribuída a Warren, 'Senhores, isto não é uma farsa', só aparece pela primeira vez na biografia de Morton, publicada em 1859, 13 anos depois e depois da morte de Warren. Não há registro da época que a sustente.
Antes do éter
Antes da anestesia, a cirurgia era limitada pela dor insuportável dos pacientes, e a velocidade dava prestígio: um amputador era valorizado pelo número de golpes de que precisava. Houve tentativas anteriores. Crawford Long usou éter em 1842 para tirar um crescimento no pescoço, mas não publicou. Horace Wells usou óxido nitroso em 11 de dezembro de 1844 e, ao tentar demonstrá-lo no Hospital Geral de Massachusetts, em janeiro de 1845, foi humilhado quando o paciente gritou.
O dia 16 de outubro
Na manhã de sexta-feira, 16 de outubro de 1846, Morton chegou atrasado: o inalador de vidro que preparara não estava pronto e nunca fora testado. Warren operou Edward Gilbert Abbott, de 21 anos, internado desde 25 de setembro. Segundo o registro do hospital, o paciente se mexeu e emitiu sons durante a parte final, mas depois disse ter sentido só uma sensação de raspagem. O comentário que ficou colado ao registro concluiu que a demonstração era inconclusiva.
Da lenda aos fatos
A versão popular fala de um tumor retirado sem dor e da frase 'isto não é uma farsa', dita por Warren. O estudo dos registros mostra uma tentativa de ligadura de uma malformação vascular, uma anestesia incompleta e uma frase que só aparece na biografia de Morton de 1859, quando Warren já havia morrido. Isso não apaga a importância histórica do dia, mas mostra que o crédito foi construído depois. A demonstração tornou o éter conhecido, e os usos seguintes o confirmaram.
A difusão
O éter foi consolidado pelo que veio depois. Em 18 de novembro de 1846, o cirurgião Henry Bigelow publicou no Boston Medical and Surgical Journal o primeiro anúncio do sucesso. Em 19 de dezembro de 1846, a técnica chegou a Londres, e em 22 de março de 1847, a Calcutá. Morton tentou lucrar com um produto secreto, o Letheon, éter com óleo de laranja, e pediu em vão compensação ao Congresso dos EUA. A disputa por prioridade com Charles Jackson marcou o resto de sua vida.
Como sabemos
Datas e personagens estão bem documentados, mas as fontes divergem sobre o que foi operado e quem merece o crédito; o texto segue o estudo dos registros originais.
Em debate: A prioridade pela anestesia com éter é disputada: Crawford Long a usou em 1842 sem publicar, Horace Wells defendia o óxido nitroso, e Charles Jackson reivindicava a sugestão do éter. A demonstração de Morton em 1846 é a mais conhecida por ter sido pública e amplamente divulgada, não por ter sido a primeira.
Em debate: Os relatos do que foi operado em 16 de outubro divergem: uma placa e muitos textos falam de remoção de tumor; os registros do hospital falam de uma tentativa de ligadura de uma malformação vascular, com anestesia incompleta. O texto segue os registros primários.
- Fato estabelecido: Em 16 de outubro de 1846, no Hospital Geral de Massachusetts, o cirurgião John Collins Warren operou Edward Gilbert Abbott, de 21 anos, com anestesia de éter aplicada por William Morton. [1] [2]
- Fato estabelecido: Morton aplicou o éter por um inalador de vidro improvisado, que não estava pronto na manhã do dia. [1] [2]
- Fato estabelecido: A operação foi uma tentativa de ligadura do suprimento de sangue de uma malformação linfovascular congênita sob a mandíbula, e não simplesmente a retirada de um tumor. [1]
Outras fontes, como a f2, descrevem a operação como retirada de um tumor vascular; a f1 se baseia nos registros originais do hospital. - Fato estabelecido: A anestesia foi incompleta: Abbott mexeu os membros e emitiu sons, mas disse depois que sentira apenas algo como raspar a região com um instrumento rombo. [1]
- Fato estabelecido: A cirurgia não eliminou a massa, e Abbott teve alta em 7 de dezembro de 1846 com a lesão sem alteração de tamanho. [1]
- Fato estabelecido: A frase 'Gentlemen, this is no humbug' aparece pela primeira vez na biografia de Morton de 1859, sem registro contemporâneo. [1]
- Fato estabelecido: Crawford Long usou éter em uma cirurgia de um crescimento no pescoço em 1842, mas não divulgou o resultado. [1] [3]
- Fato estabelecido: Em 11 de dezembro de 1844, o dentista Horace Wells usou óxido nitroso; sua tentativa de demonstração no mesmo hospital, em janeiro de 1845, fracassou quando o paciente gritou. [3]
- Fato estabelecido: Henry Bigelow publicou em 18 de novembro de 1846, no Boston Medical and Surgical Journal, o primeiro anúncio do sucesso do éter. [2]
- Fato estabelecido: A anestesia por éter chegou a Londres em 19 de dezembro de 1846 e à Índia em 22 de março de 1847. [3]
- Fato estabelecido: Morton patenteou o 'Letheon', éter misturado com óleo de laranja, e passou anos pedindo ao Congresso dos EUA uma compensação de 100 mil dólares, sem êxito financeiro. [3]
- Consenso científico: Antes da anestesia, a velocidade dava prestígio ao cirurgião, e a dor limitava o alcance das operações. [2]
- Em debate: Charles T. Jackson, químico, afirmou ter sugerido o éter para procedimentos dentários, o que gerou disputa de prioridade com Morton. [3]
A prioridade da descoberta da anestesia por éter foi disputada entre Morton, Jackson, Long e Wells; não há consenso sobre quem merece o crédito.
Fontes
- Annals of Surgery Open, via PubMed Central — Ether Day Revisited: The Surgical Records of Edward Gilbert Abbott
consultada em 04/10/2026 - Annals of Surgery Open, via PubMed Central — Henry Jacob Bigelow (1818-1890): A Champion for Anesthesia and Catalyst for the Advancement of Surgery
consultada em 04/10/2026 - Medical Journal Armed Forces India, via PubMed Central — Ether day: an intriguing history
consultada em 04/10/2026
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