Física

Por que uma gota seca deixa um anel escuro: o fluxo capilar descrito por Deegan e colegas em 1997

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Ciência do cotidiano

Quando uma gota com partículas seca sobre uma superfície, as partículas se juntam na borda e formam um anel. A borda fica presa à superfície e o líquido que evapora ali é reposto por líquido vindo do centro, o que cria um fluxo para fora que arrasta as partículas. Deegan e colegas propuseram esse fluxo capilar como causa em 1997, e o efeito ocorre com muitas superfícies, solventes e solutos.

O anel de café aparece quando uma gota de líquido com sólidos dispersos, como café, tinta ou partículas coloidais, seca sobre uma superfície sólida. A linha de contato é o contorno onde líquido, ar e superfície se encontram. Se ela fica ancorada (presa) e não recua enquanto a água evapora, o líquido perdido na borda precisa ser reposto por líquido do interior. Esse escoamento, chamado de fluxo capilar, leva as partículas junto. A explicação, portanto, não é que a borda seca primeiro e deixa o resíduo ali: é um fluxo que transporta o soluto até o contorno e deixa o centro mais claro.

Partículas ovais furam o anel

Em 2011, Yunker e colegas mostraram que partículas em forma de elipsoide ficam espalhadas de modo uniforme ao secar, enquanto esferas formam anel. Os elipsoides chegam à superfície do líquido e se atraem ali, formando uma estrutura que impede a chegada à borda.

Não é a borda que seca primeiro

A ideia comum diz que a borda seca antes e deixa o resíduo ali. Deegan e colegas (1997) propuseram outra causa: um fluxo. Com a borda presa à superfície, a água perdida por evaporação nessa região é reposta com líquido do centro da gota, e esse movimento para fora carrega as partículas. O resultado é que quase todo o material disperso chega ao contorno, deixando o interior da mancha mais claro.

Como sabemos: a lei de crescimento do anel

A teoria de 1997 prevê que a massa do anel cresce com o tempo segundo uma lei de potência, que não depende do substrato, do líquido nem das partículas. Os autores dizem ter verificado essa lei observando ao microscópio fluidos coloidais (esferas em água) e registrando o movimento das partículas em múltiplas exposições. Em 2000, o grupo publicou uma teoria que prevê a velocidade do fluxo e a distribuição do soluto, comparada com experimentos.

Quando a gota não forma anel

O anel não é inevitável. Hu e Larson (2006) mostraram que, além da linha de contato presa, é preciso que o fluxo de Marangoni, movido por diferenças de tensão superficial, seja suprimido. Em fluidos orgânicos simples ele leva o depósito ao centro. Yunker e colegas (2011) mostraram que a forma das partículas também importa: elipsoides se atraem na superfície e não chegam à borda. Aditivos que mudam viscosidade e tensão superficial são outra via.

O que este artigo não cobre

As fontes lidas tratam de gotas com partículas coloidais e de café. O sangue, citado na pauta como exemplo, é um líquido mais complexo, e não há aqui fonte lida sobre o padrão de secagem dele; por isso nenhuma afirmação sobre sangue é feita. O mesmo vale para o papel de cada fator na água versus em outros solventes: o resumo de Hu e Larson fala de supressão do fluxo de Marangoni, mas não explica o porquê para a água.

Como sabemos

O mecanismo central vem de dois artigos de Deegan et al. lidos só pelo resumo; os demais trabalhos confirmam com texto integral ou resumo.

Fontes

  1. Nature — Capillary flow as the cause of ring stains from dried liquid drops
    Deegan, R. D.; Bakajin, O.; Dupont, T. F.; Huber, G.; Nagel, S. R.; Witten, T. A. · 1997 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/39827
  2. Physical Review E — Contact line deposits in an evaporating drop
    Deegan, R. D.; Bakajin, O.; Dupont, T. F.; Huber, G.; Nagel, S. R.; Witten, T. A. · 2000 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1103/PhysRevE.62.756
  3. The Journal of Physical Chemistry B — Marangoni effect reverses coffee-ring depositions
    Hu, H.; Larson, R. G. · 2006 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1021/jp0609232
  4. Nature — Suppression of the coffee-ring effect by shape-dependent capillary interactions
    Yunker, P. J.; Still, T.; Lohr, M. A.; Yodh, A. G. · 2011 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/nature10344
  5. Science and Technology of Advanced Materials — Suppressing the coffee-ring effect of colloidal droplets by dispersed cellulose nanofibers
    Ooi, Y.; Hanasaki, I.; Mizumura, D.; Matsuda, Y. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1080/14686996.2017.1314776
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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