Evolução

Espécies em anel: Ensatina e felosa-esverdeada mostram a especiação em etapas, mas nenhum anel é perfeito

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Espécie em anel é uma cadeia de populações que contorna uma barreira e cujas duas pontas, ao se reencontrarem, não se cruzam livremente, embora cada população se cruze com a vizinha. Nas salamandras Ensatina, da Califórnia, e na felosa-esverdeada, da Ásia, o padrão geral existe, mas os dados genéticos mostram interrupções do fluxo de genes e cruzamentos entre as formas das pontas. São anéis imperfeitos, que ilustram um contínuo.

Em muitas espécies, populações vizinhas se cruzam; em outras, grupos próximos já não se cruzam. O anel de espécies reúne as duas situações numa só cadeia: populações ligadas por cruzamentos (intergradação) ao redor de uma barreira, como um vale árido ou um planalto, e cujas extremidades, ao se encontrarem, se comportam como espécies distintas. Mayr e Dobzhansky viam nisso a demonstração perfeita de que espécies surgem aos poucos, mas só um punhado de casos é conhecido. Dois muito estudados são o complexo de salamandras Ensatina eschscholtzii, que contorna o Vale Central da Califórnia, e a felosa-esverdeada (Phylloscopus trochiloides), uma ave que contorna o Tibete e tem duas formas que coexistem na Sibéria central. Este texto pergunta se eles são mesmo anéis; para o panorama de como espécies se separam, veja os artigos ligados abaixo.

Onde procurar outros anéis

Um modelo topográfico identificou 952.147 barreiras geográficas no planeta; só cerca de 1% se parece com as dos anéis conhecidos, e muitas ficam em regiões pouco estudadas, como oceanos e trópicos.

O que o padrão precisa mostrar para valer como anel

Pela definição, três coisas valem ao mesmo tempo: populações vizinhas se cruzam e se parecem; as duas pontas, ao se encontrarem, se comportam como espécies separadas; e o fluxo de genes (a troca de genes entre populações) ligou as pontas pela cadeia toda. Esta lista é síntese nossa a partir da definição. O terceiro ponto exige reconstruir a história das populações, e é nele que o caso da felosa-esverdeada foi contestado: houve interrupções do fluxo gênico em mais de um ponto, inclusive no oeste do Himalaia.

Ensatina: o anel existe, mas as pontas nem sempre se isolam

Stebbins propôs que o grupo se expandiu para o sul por dois caminhos em volta do Vale Central e voltou a se encontrar no sul da Califórnia. Nas pontas, as formas eschscholtzii e klauberi ocorrem juntas em quatro zonas de contato. Numa delas há muitos híbridos, metade de primeira geração; em outros contatos o cruzamento é raro. Entre linhagens que divergiram mais em marcadores nucleares, o cruzamento cessa por completo, mesmo em convivência. O isolamento, portanto, não é uniforme, e o anel tem lacunas na cadeia.

Felosa-esverdeada: do melhor exemplo a um contínuo com rupturas

Em 2005, marcadores AFLP mostraram diferenças nítidas entre as duas formas da Sibéria e mudança gradual ao longo da cadeia de populações ao sul do Tibete; os autores a chamaram de evidência mais forte até então de especiação pela força da distância. Em 2014, genomas inteiros confirmaram que o padrão espacial atual é, na maior parte, o esperado de um anel, mas apontaram rupturas históricas do fluxo gênico e cruzamentos ocasionais, limitados e assimétricos, entre as duas formas siberianas, que não se fundiram.

Como sabemos: o que cada método mostra e o que deixa de fora

Mapas e DNA de populações atuais mostram padrões, não a história. Por isso os estudos combinam marcadores genéticos ao longo da cadeia (AFLP em 2005, genomas inteiros em 2014), análise de zonas híbridas nas pontas (proporção de híbridos de primeira geração e largura das clines) e reconstrução das rotas de colonização. O teste pode derrubar o anel: no complexo da gaivota-prateada, o DNA mitocondrial indicou diferenciação em grande parte em alopatria. Cada método tem limite: mtDNA traça só a linhagem materna, e AFLP tem pouca resolução.

Como sabemos

Os resultados centrais vêm de artigos revisados por pares, mas os dois estudos da felosa-esverdeada foram lidos só no resumo.

Em debate:

Fontes

  1. BMC Evolutionary Biology — Asymmetric reproductive isolation between terminal forms of the salamander ring species Ensatina eschscholtzii revealed by fine-scale genetic analysis of a hybrid zone
    Devitt, T. J.; Baird, S. J. E.; Moritz, C. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/1471-2148-11-245
  2. BMC Evolutionary Biology — Predictors for reproductive isolation in a ring species complex following genetic and ecological divergence
    Pereira, R. J.; Monahan, W. B.; Wake, D. B. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/1471-2148-11-194
  3. Science — Speciation by distance in a ring species
    Irwin, D. E.; Bensch, S.; Irwin, J. H.; Price, T. D. · 2005 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1105201
  4. Nature — Genomic divergence in a ring species complex
    Alcaide, M.; Scordato, E. S.; Price, T. D.; Irwin, D. E. · 2014 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/nature13285
  5. BMC Biology — Ring distributions leading to species formation: a global topographic analysis of geographic barriers associated with ring species
    Monahan, W. B.; Pereira, R. J.; Wake, D. B. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/1741-7007-10-20
  6. Proceedings of the Royal Society B — The herring gull complex is not a ring species
    Liebers, D.; de Knijff, P.; Helbig, A. J. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2004.2679
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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