Zoologia
Andada do caranguejo-uçá: saída em massa das tocas perto da lua cheia e nova, ligada à maré e às larvas
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
A andada é o período em que machos e fêmeas do caranguejo-uçá (Ucides cordatus) saem das tocas e andam pelo manguezal para acasalar e liberar ovos. No Brasil, costuma começar um dia depois da lua cheia ou nova e durar até seis dias. A liberação das larvas coincide com as marés de maior amplitude, o que facilita levá-las ao mar. Os meses variam: na Babitonga (SC), o pico foi em dezembro e janeiro.
O caranguejo-uçá vive em galerias, as tocas que cava no sedimento do manguezal. No período reprodutivo, machos e fêmeas deixam as galerias, caminham sobre o lodo e interagem; é a andada, que as comunidades litorâneas também chamam de carnaval. Depois do acasalamento, a fêmea guarda o esperma do macho em órgãos chamados espermatecas até os ovos aparecerem. Fêmea ovígera é a que carrega ovos. Dos ovos saem as larvas chamadas zoeas, que vivem na água, e depois a megalopa, fase final, que volta ao estuário. Maré de sizígia é a de maior amplitude, que ocorre perto da lua cheia e da nova. É nelas que se concentram a liberação das zoeas e a volta da megalopa.
Espuma na boca antes da andada
Segundo a revisão de 2016 do Livro Vermelho dos Crustáceos, os machos liberam espuma pela boca de 3 a 9 dias antes da andada, possivelmente para aumentar a atração da parceira. A função da espuma ainda é hipótese.
O que acontece na andada
Machos e fêmeas saem das galerias, caminham e interagem. Os machos soltam espuma pela boca de 3 a 9 dias antes da andada e brigam entre si pela posse das fêmeas. Depois da cópula, a fêmea estoca o esperma até que as gônadas se desenvolvam e os ovos apareçam. O intervalo até a desova é de cerca de dois meses na revisão de 2016 e de cerca de um mês na Babitonga, onde a cópula foi em novembro e a desova em dezembro. A fonte não concilia os dois valores.
Ovos, incubação e número de larvas
Os ovos ficam com a fêmea até as larvas nascerem. Um estudo mediu 19 dias de incubação a 27 °C e outro, 27 dias. Em Iguape (SP), 58 fêmeas com ovos em estágio final liberaram de 71.200 a 220.800 larvas cada, e as maiores deram mais larvas. Na Babitonga, fêmeas com ovos só apareceram em dezembro e janeiro, coincidindo com o pico da andada.
Por que maré grande e lua cheia ou nova
A liberação das zoeas acompanha as marés de maior amplitude, e isso facilita sua dispersão para o mar. As primeiras fases de zoea, de cerca de oito dias, toleram salinidades variadas, mas as finais não toleram salinidade baixa; por isso, sair do estuário seria vantajoso. Depois de três a quatro semanas em áreas oceânicas, a megalopa volta pelos estuários nas marés enchentes da lua cheia e nova e se assenta no sedimento. O que acontece com os jovens depois, no mangue, é tema do post sobre o mangue como berçário.
Como sabemos, e onde os estudos divergem
Na Babitonga, os autores contaram caranguejos em área demarcada na primeira maré baixa do dia, mês a mês, de maio de 2002 a abril de 2003, e cruzaram as contagens com a fase da lua; não viram o acasalamento, que pode ter ocorrido nas marés de sizígia, não avaliadas. Em Iguape, fêmeas com ovos foram mantidas em laboratório até as larvas nascerem. Outros locais divergem: em Caravelas (BA) a andada só ocorreu após a lua nova, e a andada noturna foi vista em um estudo e não em outro. A hipótese do controle por temperatura e dia ainda não foi testada.
A norma de 2025 para a andada
No Norte e no Nordeste, o poder público usa a andada para marcar o defeso. A Portaria Interministerial MPA/MMA nº 22, de 30 de dezembro de 2024, definiu cinco janelas de seis dias, entre 30 de dezembro de 2024 e 3 de abril de 2025, para 11 estados. A janela de 13 a 18 de janeiro valeu só para sete. Nesta página, as datas são de 2025: cada ano e cada região têm normas próprias, e o manejo da pesca fica fora deste texto.
Como sabemos
O padrão geral (lua, maré, meses de verão) é bem documentado, mas vários números vêm de segunda mão pela revisão de 2016 e variam entre locais.
Em debate: Em Caravelas (BA) a andada foi registrada só após a lua nova; um estudo relatou 75% das fêmeas em andada à noite, outro não encontrou andadas noturnas.
- Fato estabelecido: A andada, conhecida também como carnaval do caranguejo, é o período em que caranguejos-uçá machos e fêmeas saem das galerias (tocas) e andam pelo manguezal para acasalar e liberar ovos; a portaria federal de 2024 usa essa definição. [1] Art. 1º, § 2º [2] Discussão
Contexto: Ucides cordatus em manguezais do Brasil; a definição legal vale para os estados da portaria de 2024. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: No Brasil, as andadas podem ocorrer em até cinco meses do ano, de novembro a março, e costumam começar um dia depois da lua cheia ou nova e durar até seis dias. [3] Biologia Geral, sobre a andada
Contexto: Síntese de vários estudos locais citados na revisão de 2016 (Pará à Santa Catarina). · Limitações: É um padrão geral: os detalhes mudam de lugar para lugar (ver a afirmação sobre divergências). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na baía da Babitonga (SC), numa amostragem de maio de 2002 a abril de 2003, a andada acompanhou as luas cheias e novas e foi mais intensa em dezembro e janeiro; fêmeas com ovos só apareceram nesses dois meses. [2] Discussão
Contexto: Dois manguezais da baía da Babitonga (Iperoba e Palmital), litoral norte de Santa Catarina; 2.265 caranguejos analisados em coletas mensais. · Limitações: Os autores contaram os caranguejos na primeira maré baixa do dia e não viram o acasalamento em si, que pode ter ocorrido nas marés de sizígia, não avaliadas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Antes da andada, os machos liberam espuma pela boca; durante ela, brigam entre si pela posse das fêmeas. A revisão de 2016 diz que a espuma serviria possivelmente para aumentar a atração da parceira, o que segue como hipótese. [3] Biologia Geral, sobre a andada
Contexto: Observações em manguezais brasileiros (Góes et al. 2000 e outros, citados na revisão). · Limitações: A função da espuma não foi testada nos trabalhos citados; é interpretação dos autores. · A observação (espuma, confrontos) é fato; a função atribuída à espuma é hipótese. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Depois do acasalamento, as fêmeas guardam o esperma do macho até os ovos aparecerem. O intervalo até a desova varia entre estudos: cerca de dois meses segundo a revisão de 2016, cerca de um mês na Babitonga (cópula em novembro, desova em dezembro). [2] Discussão [3] Biologia Geral, sobre a andada
Contexto: Intervalo entre cópula e desova em populações do Sudeste e do Sul. · Limitações: Os dois valores vêm de locais e métodos diferentes; não há um número único. · Estimativas diferentes entre populações; a diferença pode ser real ou de método. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A incubação dos ovos dura, em média, 19 dias a 27 °C em um estudo, contra 27 dias em outro (Diele, 2000), segundo a revisão de 2016. [3] Biologia Geral, sobre os ovos
Contexto: Valores de dois estudos citados pela revisão; temperaturas e locais diferem. · Limitações: Leitura de segunda mão: li a revisão, não os dois estudos originais (Pinheiro & Hattori, 2003; Diele, 2000). · Os dois valores não são conciliados na fonte. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Iguape (SP), 58 fêmeas com ovos liberaram entre 71.200 e 220.800 larvas cada, e fêmeas maiores deram mais larvas. [4] Resultados
Contexto: Manguezal da Barra de Icapara, Iguape (SP); fêmeas coletadas de dezembro de 2001 a janeiro de 2002, com largura de carapaça de 41,7 a 76,8 mm. · Limitações: Um local e uma estação; o valor é o de larvas eclodidas em laboratório, não a contagem de ovos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A liberação das larvas pelas fêmeas coincide com as marés de maior amplitude, perto da lua cheia e da nova, o que facilita levá-las ao mar. [3] Biologia Geral, sobre as larvas [5] Discussão
Contexto: Citada pela revisão de 2016 a partir de Freire (1998) e Diele (2000); Britto et al. (2018) repetem a ideia em estudo genético. · Limitações: Segundo a revisão, Freire e Diele observaram a sincronia; a explicação (dispersão para o mar) é a interpretação dos autores. Li as duas fontes, não os trabalhos de origem. · Sincronia observada; vantagem para a dispersão é interpretação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A eclosão das larvas pode ocorrer dentro das galerias ou na margem dos canais, após uma curta migração das fêmeas com ovos. Em Iguape, 89,7% das fêmeas liberaram larvas à noite. [3] Biologia Geral, sobre as larvas [4] Abstract
Contexto: O local de eclosão varia com quanto o manguezal alaga; o dado noturno vem de 58 fêmeas mantidas em laboratório em Iguape. · Limitações: A porcentagem de 89,7% é de fêmeas em laboratório, em um único local. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em laboratório, o desenvolvimento larval completo levou 60 dias a 25 °C, com seis estágios de zoea e uma megalopa. Em áreas oceânicas, a revisão cita três a quatro semanas, e a megalopa volta aos estuários nas marés enchentes de lua cheia e nova. [3] Biologia Geral, sobre as larvas
Contexto: O valor de 60 dias é de cultivo em laboratório (Rodrigues & Hebling, 1989); o de três a quatro semanas é de Diele (2000), citado pela revisão. · Limitações: Os dois tempos diferem e não são conciliados na fonte; o de laboratório não é o do mar. · Duas durações diferentes (laboratório e áreas oceânicas); ambas citadas de segunda mão. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: As primeiras fases de zoea, de cerca de oito dias, toleram salinidades variadas; as fases finais não toleram salinidade baixa. Por isso, levar as larvas recém-nascidas para fora do estuário seria uma estratégia para evitar essa condição. [5] Discussão
Contexto: Caranguejo-uçá na costa brasileira; texto de revisão do contexto do estudo genético de Britto et al. (2018). · Limitações: Interpretação dos autores baseada em trabalhos anteriores; não foi testada no estudo. · O tempo de oito dias e a tolerância vêm de trabalhos que Britto et al. citam, não de medição própria. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Uma hipótese para o ritmo anual: queda de temperatura e de duração do dia inibiria a reprodução e a maturação das gônadas das fêmeas só começaria em agosto; isso sincronizaria fêmeas com ovos com os meses quentes e a eclosão com as marés maiores. [2] Discussão
Contexto: Proposta dos autores para a Babitonga (SC), com base em dados do local e em literatura. · Limitações: Os autores escrevem que os fatores "parecem" causar a inibição; a causa não foi testada. · Hipótese dos autores; não foi testada por experimento. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Os estudos divergem em detalhes: em Caravelas (BA) a andada só foi registrada após a lua nova, e fêmeas em andada à noite somaram 75% em um estudo, enquanto outro não constatou andadas noturnas nas luas cheia e nova de novembro e dezembro de 2005. [3] Biologia Geral, sobre a andada
Contexto: Resultados de locais e anos diferentes, relatados na revisão de 2016. · Limitações: Não sei se a diferença vem do local, do ano ou do método; a fonte não resolve. · Divergência publicada entre estudos de campo; não há consenso sobre a andada noturna. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A andada intensifica a exploração comercial do caranguejo-uçá, porque é o momento em que ele é mais fácil de capturar, segundo os autores do estudo da Babitonga. [2] Discussão
Contexto: Descrição dos autores para a pesca no Sul e no Sudeste. · Limitações: É relato dos autores, sem quantificação neste trecho. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2025, a Portaria Interministerial MPA/MMA nº 22, de 30 de dezembro de 2024, fixou cinco janelas de defeso do caranguejo-uçá, de seis dias cada, entre 30 de dezembro de 2024 e 3 de abril de 2025, para 11 estados do Norte e do Nordeste; a janela de 13 a 18 de janeiro valeu só para sete deles. [1] Art. 1º, § 1º
Contexto: Norma de 2025 para AP, PA, MA, PI, CE, RN, PB, PE, AL, SE e BA. Outros anos e outros estados (Sudeste e Sul) têm normas e datas próprias. · Limitações: Cada janela dura seis dias contando os dois extremos (cálculo nosso a partir das datas). Datas mudam a cada ano; este texto não vale para outros anos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Ibama (cópia do Diário Oficial da União, seção 1, edição 250-E) — Portaria Interministerial MPA/MMA nº 22, de 30 de dezembro de 2024: períodos de defeso do caranguejo-uçá (Ucides cordatus)
Ministério da Pesca e Aquicultura; Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima · 2024-12-30 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Revista Brasileira de Zoologia 25(2): 188-198 (SciELO) — Biologia do caranguejo-uçá, Ucides cordatus (Crustacea: Decapoda: Brachyura), na Baía da Babitonga, Santa Catarina, Brasil
Wunderlich, A. C.; Pinheiro, M. A. A.; Rodrigues, A. M. T. · 2008 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1590/S0101-81752008000200005 - Sociedade Brasileira de Carcinologia (SBC) — Avaliação do caranguejo-uçá, Ucides cordatus (Linnaeus, 1763) (Decapoda: Ucididae), cap. 33 do Livro Vermelho dos Crustáceos do Brasil: Avaliação 2010-2014
Pinheiro, M. A. A.; Santos, L. C. M.; Souza, C. A.; João, M. C. A.; Dias Neto, J.; Ivo, C. T. C. · 2016 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Revista Brasileira de Zoologia 20(2) (SciELO) — Fertilidade do caranguejo de mangue Ucides cordatus (Linnaeus) (Crustacea, Brachyura, Ocypodidae), em Iguape (São Paulo, Brasil)
Hattori, G. Y.; Pinheiro, M. A. A. · 2003 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1590/S0101-81752003000200022 - PeerJ 6: e4702 (PubMed Central) — Population connectivity and larval dispersal of the exploited mangrove crab Ucides cordatus along the Brazilian coast
Britto, F. B.; Schmidt, A. J.; Carvalho, A. M. F.; Vasconcelos, C. C. M. P.; Farias, A. M.; Bentzen, P.; Diniz, F. M.; et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7717/peerj.4702
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- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)