Biologia

Atacama e Rio Tinto: lugares da Terra que servem de ensaio para a busca de vida em Marte

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Astrobiologia

Cientistas estudam esses lugares porque, na Terra, eles reproduzem parte das condições de Marte. No núcleo árido do Atacama, o solo tem pouquíssima matéria orgânica e poucas bactérias cultiváveis. No Rio Tinto, na Espanha, a água ácida (pH médio 2,3) convive com minerais de ferro como a jarosita, também identificada em Marte pelo jipe Opportunity. Servem para testar instrumentos e métodos, não como cópias do planeta.

Um análogo planetário é um lugar da Terra que reproduz um aspecto de outro mundo, como secura, acidez ou composição do solo. Ele não é uma cópia de Marte: serve para treinar a leitura de sinais e testar equipamentos antes de enviá-los. Matéria orgânica é o conjunto de compostos de carbono ligados à vida, e um oxidante é uma substância que reage com eles e os destrói. A sonda Viking, em 1976, não detectou compostos orgânicos no solo marciano. Estudos em solos terrestres parecidos mostraram que o método usado podia deixar passar quantidades pequenas e que minerais de ferro, como a jarosita, atrapalham a detecção. Por isso Atacama e Rio Tinto entram nos ensaios de missões.

Um solo que decompõe sem vida

Em experimentos inspirados no ensaio de 1976 da Viking, solos do Atacama decompuseram compostos orgânicos por processos não biológicos. Um resultado parecido com o das sondas pode, assim, ter causa puramente química.

O que é um análogo e para que serve

Um análogo é um local da Terra que reproduz uma ou poucas características de Marte. Em 2003, um programa da NASA preparou um laboratório móvel de astrobiologia para campanhas de campo no Atacama, tratado como análogo da superfície marciana. O mesmo raciocínio vale para métodos: no projeto MARTE, perfurações em Peña de Hierro, na Espanha, procuraram atividade microbiana no subsolo para treinar a busca em outro planeta.

Atacama: um solo que se parece com o relatado pelas Viking

O núcleo árido do Atacama é estimado como hiperárido há cerca de 15 milhões de anos. Amostras de Yungay têm 20 a 40 microgramas de carbono por grama de solo e bactérias cultiváveis em quantidade extremamente baixa. Em laboratório, a decomposição de compostos orgânicos nesses solos ocorreu por processos não biológicos. Regiões mais úmidas do deserto, com 400 a 440 microgramas, seriam detectadas facilmente pelo método das Viking.

Rio Tinto: acidez, ferro e jarosita

O Rio Tinto tem 92 km, pH médio de 2,3 e muitos metais pesados. Seus depósitos de sulfatos e óxidos de ferro lembram os de Marte, e por isso ele é tratado como análogo geoquímico e mineralógico. A jarosita, mineral que precipita em meio ácido, foi identificada em Meridiani Planum, onde o Opportunity começou a trabalhar em 2004. Nos solos de jarosita do Rio Tinto, óxidos de ferro oxidam a matéria orgânica e atenuam a detecção pelo método das Viking.

Como sabemos e onde a analogia para

O argumento vem de medidas em laboratório: os autores comparam o que o método das Viking detecta e o carbono total das mesmas amostras, e acham 10 a 90 microgramas de carbono refratário que passariam despercebidos. É inferência, não observação direta de Marte. Um relatório de 2017 lembra que ambientes marcianos podem ser química e fisicamente diferentes dos terrestres e preservar sinais de vida em taxas distintas. Um análogo reproduz um aspecto, e nenhum reproduz o conjunto.

Como sabemos

Conceitos e números lidos em texto integral de revisões e do estudo de 2006, mas o artigo de 2003 foi lido só no resumo.

Fontes

  1. Frontiers in Microbiology — The Hyperarid Core of the Atacama Desert, an Extremely Dry and Carbon Deprived Habitat of Potential Interest for the Field of Carbon Science
    Azua-Bustos, A. et al. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2017.00993
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences — The limitations on organic detection in Mars-like soils by thermal volatilization–gas chromatography–MS and their implications for the Viking results
    Navarro-González, R. et al. · 2006 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0604210103
  3. Science — Mars-like soils in the Atacama Desert, Chile, and the dry limit of microbial life
    Navarro-González, R. et al. · 2003 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1089143
  4. Life (Basel) — Río Tinto: A Geochemical and Mineralogical Terrestrial Analogue of Mars
    Amils, R. et al. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/life4030511
  5. Astrobiology — Biosignature Preservation and Detection in Mars Analog Environments
    Hays, L. E.; Graham, H. V. et al. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1089/ast.2016.1627
  6. NASA Technical Reports Server — AstroBioLab: A Mobile Biotic and Soil Analysis Laboratory
    Bada, J. L.; Zent, A. P.; Grunthaner, F. J.; Quinn, R. C.; Navarro-González, R.; Gómez-Silva, B.; McKay, C. P. · 2003 · Documento institucional · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
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