Oceanografia
A circulação do Atlântico (AMOC) deve enfraquecer neste século, mas um colapso abrupto é tema de debate científico
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
A Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, a AMOC, leva águas quentes para o norte perto da superfície e traz águas frias e profundas de volta para o sul. Segundo um modelo citado na revista Oceanography, sem ela quase todo o Hemisfério Norte seria mais frio, em especial Islândia, Escandinávia e Grã-Bretanha. O IPCC avalia que a AMOC muito provavelmente diminuirá no século XXI, mas com confiança média de que não haverá colapso abrupto antes de 2100. Estudos recentes divergem sobre esse risco.
Medições diretas contínuas da AMOC só existem desde 2004, com a rede de instrumentos RAPID a 26° N; antes disso, havia poucas campanhas de navio desde os anos 1950. Por isso, parte da evidência é indireta: o Atlântico Norte subpolar esfriou enquanto o planeta esquentou, um padrão previsto pelos modelos para uma AMOC mais lenta, que Caesar e colegas associaram, em 2018, a um enfraquecimento de cerca de 15%. O próprio IPCC, porém, tem baixa confiança nas reconstruções e simulações da AMOC no século XX. Em 2023, os dinamarqueses Peter e Susanne Ditlevsen estimaram um colapso por volta de meados do século, a partir de sinais estatísticos de alerta. Em 2025, um estudo com 34 modelos concluiu que um colapso é improvável neste século.
A primeira medida da água do fundo
Em 1751, o capitão inglês Henry Ellis, comandante de um navio negreiro, baixou um termômetro a 25° N no Atlântico e achou a água profunda gelada. Segundo a revista Oceanography, foram as primeiras medições de temperatura do oceano profundo de que se tem registro.
O que é a AMOC
A AMOC é o sistema de correntes do Atlântico em que águas relativamente quentes fluem para o norte perto da superfície e águas frias retornam para o sul em profundidade. Rahmstorf destaca que a temperatura não é o único ingrediente: o sal também importa. A circulação transporta calor, e por isso é estudada em relação ao clima regional, sobretudo no norte da Europa.
Como se mede
Medições diretas contínuas vêm da rede RAPID, que mede correntes e salinidade do fundo à superfície, atravessando o Atlântico a 26° N desde 2004. Antes disso, só havia poucas campanhas de navio desde os anos 1950. Como a série é curta, os pesquisadores usam evidências indiretas, como o resfriamento do Atlântico Norte subpolar, que Caesar e colegas ligaram a um enfraquecimento de cerca de 15%.
Alertas e contra-argumentos
Em 2023, Ditlevsen e Ditlevsen usaram sinais estatísticos de alerta e estimaram um colapso por volta de meados do século, numa faixa de 2025 a 2095, com limitações apontadas por Rahmstorf. Em 2024, o grupo de Utrecht propôs um sinal de alerta baseado em física. Em 2025, Baker e colegas, usando 34 modelos, mostraram que ventos no Oceano Sul sustentam uma AMOC enfraquecida, e concluíram que um colapso é improvável neste século.
O que o IPCC afirma
O sexto relatório do IPCC diz que a AMOC muito provavelmente diminuirá ao longo do século XXI em todos os cenários de emissões, com confiança média de que não haverá colapso abrupto antes de 2100. Também registra baixa confiança nas tendências do século XX, por falta de concordância entre reconstruções e modelos. O quadro, portanto, combina um enfraquecimento esperado com incerteza sobre o ritmo e os limiares.
Como sabemos
O enfraquecimento projetado é consenso do IPCC, mas o ritmo e a possibilidade de colapso abrupto estão em debate, e o texto expressa isso como divergência entre estudos.
Em debate: Há debate sobre o risco de colapso da AMOC. Ditlevsen e Ditlevsen (2023) estimam colapso por volta de meados do século usando sinais estatísticos de alerta, mas Rahmstorf (2024) observa que previsões desse tipo têm limitações. Um estudo de 2024 do grupo de Utrecht (van Westen et al.) também aponta um sinal de alerta baseado em física. Já o IPCC AR6 tem confiança média de que não haverá colapso abrupto antes de 2100, e Baker et al. (2025), com 34 modelos, concluem que um colapso é improvável neste século.
Em debate: A magnitude do enfraquecimento já ocorrido (cerca de 15% desde meados do século XX, por reconstrução indireta) é incerta: o IPCC tem baixa confiança nas tendências reconstruídas do século XX.
- Consenso científico: O IPCC (AR6) avalia que a AMOC muito provavelmente diminuirá ao longo do século XXI em todos os cenários. [1]
- Consenso científico: O IPCC tem confiança média de que o declínio não envolverá um colapso abrupto antes de 2100. [1]
Avaliação de confiança média, não certeza; pesquisas posteriores ao relatório divergem. - Fato estabelecido: Para o século XX, o IPCC tem baixa confiança nas mudanças reconstruídas e modeladas da AMOC, por baixa concordância entre as tendências quantitativas. [1]
- Fato estabelecido: A AMOC é medida de forma contínua por instrumentos no Atlântico a 26° N desde 2004; antes, os dados diretos vinham de poucas campanhas de navio desde os anos 1950. [4]
- Interpretação: O resfriamento do Atlântico Norte subpolar (o 'buraco de aquecimento') é interpretado como sinal de uma AMOC mais lenta, e Caesar e colegas o associaram a um enfraquecimento de cerca de 15%. [4]
Reconstrução indireta; o IPCC tem baixa confiança nas tendências do século XX. - Interpretação: Em simulação sem a AMOC, quase todo o Hemisfério Norte ficaria mais frio, especialmente Islândia, Escandinávia e Grã-Bretanha. [4]
Resultado de modelo (van Westen et al., 2024), não observação. - Hipótese: Ditlevsen e Ditlevsen (2023) estimaram um colapso da AMOC por volta de meados do século, com base em sinais estatísticos de alerta nos dados observados. [3] [4]
A faixa dada pelos autores vai de 2025 a 2095; Rahmstorf (2024) observa que essas previsões têm limitações. - Evidência forte: Baker et al. (2025) mostraram, em 34 modelos climáticos, que a AMOC resiste a forçamentos extremos de gases do efeito estufa e de água doce, e sugerem que um colapso é improvável neste século. [2]
Baseado em modelos; os autores pedem melhor conhecimento da circulação do Oceano Sul e do Indo-Pacífico. - Evidência forte: O afloramento de águas no Oceano Sul, mantido por ventos persistentes, sustenta uma AMOC enfraquecida em todos os casos simulados. [2]
- Evidência forte: No último período glacial, mudanças abruptas do clima no Atlântico Norte, como os eventos Dansgaard-Oeschger, com mais de 20 aquecimentos bruscos de 10 a 15 °C em uma ou duas décadas na Groenlândia, foram ligadas a mudanças na circulação oceânica. [4]
- Fato estabelecido: Em 1751, o capitão Henry Ellis fez as primeiras medições registradas de temperatura do oceano profundo, a 25° N, e achou a água fria. [4]
Fontes
- Intergovernmental Panel on Climate Change — Chapter 9: Ocean, Cryosphere and Sea Level Change, in Climate Change 2021: The Physical Science Basis (AR6 WG1)
consultada em 04/10/2026 - Nature — Continued Atlantic overturning circulation even under climate extremes
consultada em 04/10/2026 - Nature Communications — Warning of a forthcoming collapse of the Atlantic meridional overturning circulation
consultada em 04/10/2026 - Oceanography (The Oceanography Society) — Is the Atlantic Overturning Circulation Approaching a Tipping Point?
consultada em 04/10/2026
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