Ciências da Terra
O Amazonas nem sempre correu para o Atlântico: antes, a água do oeste da bacia escoava para o norte
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
O Amazonas atual, que atravessa a América do Sul de oeste a leste, é relativamente jovem. Durante boa parte do Cenozoico, os rios do oeste da bacia corriam para o norte, rumo ao proto-Caribe. O soerguimento dos Andes e a formação de um grande sistema de lagos e pântanos mudaram esse arranjo. A maioria das reconstruções coloca o rio que flui até o Atlântico no Mioceno tardio, entre cerca de 9 e 11 milhões de anos atrás.
Hoje o Amazonas nasce nos Andes, cruza o continente e deságua no Atlântico, drenando a maior bacia fluvial do planeta. Mas essa direção não é eterna. No fim do Cretáceo e no Paleógeno, rios do noroeste sul-americano corriam para o norte, e uma elevação no interior, o Arco de Purus, separava essa drenagem da que ia para o Atlântico. No Mioceno inicial e médio, o oeste da bacia virou um vasto sistema de lagos, pântanos e rios, o sistema Pebas. Com os Andes subindo e o nível do mar caindo, as duas metades da bacia se conectaram. A data exata é debatida, e o modelo mais aceito hoje se apoia em sedimentos andinos que aparecem no leque submarino do Amazonas.
Uma área de pântano maior que o Pantanal
O sistema Pebas, no oeste da Amazônia, chegou a cobrir cerca de 10% da área atual da bacia e teria sido, segundo uma reportagem da FAPESP, cerca de 20 vezes maior que o Pantanal de hoje.
Os Andes mudam o mapa
O soerguimento da cordilheira ocorreu em fases e redirecionou a drenagem do norte da América do Sul. Entre as fases listadas na literatura estão a Incaica (48 a 34 Ma) e as Quechua 1, 2 e 3, entre 17 e 5 Ma. Cada pulso criou relevo, desviou rios e despejou sedimento nas bacias vizinhas.
O sistema Pebas
Antes do Amazonas atual, o oeste da bacia era uma extensa zona de lagos, pântanos e rios. Ela persistiu por mais de 15 milhões de anos, em configurações diferentes, e cobria cerca de 10% da área da bacia de hoje. A reconstrução vem de depósitos sedimentares e de fósseis, e o tamanho exato varia conforme o autor e a época considerada.
A prova no fundo do mar
Como o rio antigo não deixou leito, os cientistas olham para onde o sedimento foi parar. Na Bacia da Foz do Amazonas, grãos de origem andina só aparecem a partir de cerca de 10 milhões de anos atrás, e um segundo salto vem por volta de 4,5 milhões de anos.
Um debate aberto
As idades propostas para o início do Amazonas vão de 0,1 a 12,6 milhões de anos. As análises com vários métodos convergem para o Mioceno tardio, mas pesquisadores brasileiros lembram que os dados ainda são esparsos e localizados. A pergunta sobre o Pacífico também segue sem resposta única.
Como sabemos
A reversão da drenagem no Mioceno tardio é bem apoiada, mas a data exata e o destino da água antes dela (Caribe ou Pacífico) seguem em debate.
Em debate: Os estudos dão datas entre 0,1 e 12,6 milhões de anos. A maioria das análises com vários métodos aponta o Mioceno tardio, por volta de 9 a 11 Ma, mas há quem proponha idades bem mais recentes e quem discuta se a ligação foi gradual ou rápida.
- Evidência forte: No Cretáceo tardio e no Paleógeno (cerca de 100 a 23 Ma), os rios do oeste do norte da América do Sul corriam para o norte, rumo ao proto-Caribe, enquanto o leste drenava para o Atlântico. [1]
- Evidência forte: O Arco de Purus funcionou como uma elevação estrutural persistente que separava a drenagem do oeste da do leste. [1]
- Consenso científico: No Mioceno inicial e médio, o oeste da Amazônia abrigou o sistema Pebas, um megaecossistema de lagos e pântanos que persistiu em várias configurações por mais de 15 milhões de anos. [1]
- Estimativa: O sistema Pebas chegou a cobrir cerca de 10% da área atual da bacia amazônica. [1]
Estimativa de reconstrução paleogeográfica; a área variou ao longo do tempo. - Evidência forte: O soerguimento do norte dos Andes ocorreu em fases, entre elas Quechua 1 (17 a 15 Ma), Quechua 2 (9 a 8 Ma) e Quechua 3 (7 a 5 Ma). [1]
- Evidência forte: Sedimentos de origem andina aparecem no leque submarino do Amazonas a partir de cerca de 10,1 a 9,4 Ma, o que marca a ligação entre o oeste e o Atlântico. [1]
- Evidência forte: Um segundo aumento marcante de sedimentação no leque ocorre por volta de 4,5 Ma, e o sistema transcontinental teria se formado ao longo de cerca de 4,9 a 5,6 milhões de anos. [1]
- Em debate: Estimativas de idade do início do Amazonas variam de 0,1 a 12,6 Ma entre estudos; análises com vários métodos favorecem o Mioceno tardio (9 a 10 Ma). [1]
Há debate real: alguns estudos de datação por luminescência sugerem idades pleistocênicas, que podem refletir sedimento reciclado. - Hipótese: Um modelo numérico de erosão e sedimentação indicou a formação do rio atual por volta de 10,5 Ma. [2]
Resultado de simulação, atribuído a Victor Sacek na reportagem; depende das premissas do modelo. - Interpretação: Um estudo da Bacia da Foz do Amazonas concluiu que a direção ancestral do rio foi para oeste até o início do Mioceno tardio, e que a reversão ocorreu há cerca de 10 a 11 Ma, por subsidência do Arco de Gurupá e queda do nível do mar. [3]
Interpretação dos autores do artigo; o resumo menciona o escoamento para o Pacífico e o Caribe, mas a evidência mais citada é a do escoamento para o norte. - Consenso científico: A reorganização da drenagem criou eventos de dispersão e isolamento que afetaram a diversificação de táxons de água doce na Grande Amazônia. [1] [4]
- Fato estabelecido: A reportagem da FAPESP registra que os dados obtidos até agora são, nas palavras da geóloga Dilce Rossetti, esparsos e localizados demais para conclusões definitivas sobre a origem do Amazonas. [2]
Fontes
- Neotropical Ichthyology (SciELO) — The changing course of the Amazon River in the Neogene: center stage for Neotropical diversification
consultada em 06/10/2026 - Revista Pesquisa FAPESP — The distant past of a great river
consultada em 06/10/2026 - Brazilian Journal of Geology (SciELO) — Eustatic and tectonic change effects in the reversion of the transcontinental Amazon River drainage system
consultada em 06/10/2026 - Science (Europe PMC) — Amazonia through time: Andean uplift, climate change, landscape evolution, and biodiversity
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 5 imagem(ns) real(is) do Commons
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão