Ciências da Terra

Como o Altiplano chegou a cerca de 4 km: subducção, encurtamento e perda de litosfera, com datas em disputa

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Tectônica de placas

O platô Altiplano-Puna, com cerca de 4 km de altitude média, resulta da subducção da placa de Nazca sob a América do Sul, mas o quando e o como seguem em debate. Isótopos em vidro vulcânico indicam subidas da ordem de 2 km no Mioceno médio a tardio, entre cerca de 15 e 8 milhões de anos atrás, talvez após encurtamento e perda de litosfera densa; outros estudos defendem altitude quase atual desde o Eoceno.

O Altiplano-Puna é o segundo maior platô orogênico do mundo, atrás do Tibete. Ao norte, o Altiplano (Peru e Bolívia) tem altitude média de 3,8 km e bacias extensas; ao sul, a Puna argentina tem média de 4,4 km e serras de até 6 km. O platô é ladeado pelo arco vulcânico da Cordilheira Ocidental e pela faixa de dobras e falhas da Cordilheira Oriental. Três processos disputam o crédito pela altura: o encurtamento, que empilha e engrossa a crosta; a perda da base densa da litosfera, que deixa o platô mais alto; e a adição de magma. Altitude antiga não se mede com régua: infere-se de isótopos de hidrogênio em vidro vulcânico, com incerteza de centenas de metros a mais de 1 km.

Sedimento não levanta um platô

Segundo Sundell et al. (2019), 3 km de sedimento sobre manto mais denso elevariam o Altiplano só cerca de 0,6 km; para ganhar 2,5 km sem perda de litosfera seriam necessários cerca de 12 km, mais que os cerca de 5 km de estratos neógenos documentados.

Um platô, vários compartimentos

“O Altiplano chegou a 4 km” junta histórias diferentes. Na Puna central, os dados isotópicos indicam subida de cerca de 2 para 4 km entre 13 e 10 milhões de anos atrás. No sul do Peru, a Cordilheira Ocidental central teria subido 2 a 2,5 km entre 20 e 17 milhões de anos atrás; a Cordilheira Ocidental sul e o Altiplano, entre 15 e 10; e a Cordilheira Oriental, devagar, 1,5 a 2 km entre 25 e 10. A média de 4 km é o resultado, não o roteiro.

Encurtamento, lâmina ou gota

Uma família de explicações é o encurtamento: a crosta é comprimida e engrossa, e a superfície sobe devagar, como na Cordilheira Oriental (cerca de 0,1 km por milhão de anos). Outra é a perda de litosfera densa, seja como lâmina única (delaminação), seja como gota que afunda por instabilidade de Rayleigh–Taylor. Então a crosta passa a flutuar mais alto e a subida pode ser mais rápida. Os dados do sul do Peru sugerem que os dois processos atuaram em lugares e épocas diferentes.

Como sabemos: paleoaltimetria por isótopos de hidrogênio

Vidro vulcânico hidratado guarda a razão deutério/hidrogênio da água da época; a chuva em altitude é isotopicamente mais leve. Compara-se o vidro de cada idade com o de um local baixo de referência e usa-se a variação medida na água atual (que, no sul do Peru, reproduz altitudes de bacias a ±500 m) para estimar quanto o terreno subiu. Limites: a evaporação em clima árido enriquece o deutério e pode simular queda de altitude, a taxa atual é suposta constante, e a incerteza do ganho na Puna chega a ±1,1 km.

O que o caso mostra sobre platôs

Um platô alto não nasce de um evento único: o encurtamento estimado vai de 50–120 km no Peru a 250–300 km na Bolívia central, e o Altiplano, sobre a crosta mais espessa, está 1 a 2 km abaixo do previsto por isostasia, ao lado de litosfera fria e densa. O ritmo da subida ajuda a separar mecanismos, mas vem de um proxy com erro grande. Para comparar com um platô de colisão, veja o post sobre a Índia e a Ásia.

Como sabemos

Quatro artigos abertos, lidos na íntegra, sustentam números e métodos; a cronologia da elevação é disputada e varia por setor do platô.

Em debate: Estudos isotópicos anteriores indicam altitude próxima da atual na Puna desde o Eoceno; Pingel et al. (2023) encontram subida de cerca de 2 km entre 13 e 10 milhões de anos atrás, e argumentam que o enriquecimento por evaporação afeta parte dos dados anteriores.

Em debate: Há dados de que parte da litosfera foi removida sob o platô, mas se a remoção foi uma lâmina coerente ou gotas por instabilidade de Rayleigh–Taylor, e quando, segue em disputa; para o encurtamento versus remoção, os estudos do sul do Peru e da Puna propõem pesos diferentes.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Miocene surface uplift and orogenic evolution of the southern Andean Plateau (central Puna), northwestern Argentina
    Pingel, H.; Alonso, R. N.; Bookhagen, B.; Cottle, J. M.; Mulch, A.; Rohrmann, A.; Strecker, M. R. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2303964120
  2. Scientific Reports — Rapid surface uplift and crustal flow in the Central Andes (southern Peru) controlled by lithospheric drip dynamics
    Göğüş, O. H.; Sundell, K.; Şengül Uluocak, E.; Saylor, J.; Çetiner, U. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-022-08629-8
  3. Scientific Reports — Implications of variable late Cenozoic surface uplift across the Peruvian central Andes
    Sundell, K. E.; Saylor, J. E.; Lapen, T. J.; Horton, B. K. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-019-41257-3
  4. Nature Communications — Surface uplift in the Central Andes driven by growth of the Altiplano Puna Magma Body
    Perkins, J. P.; Ward, K. M.; de Silva, S. L.; Zandt, G.; Beck, S. L.; Finnegan, N. J. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/ncomms13185
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)

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