Biologia

Por que alguns fungos brilham no escuro? A hipótese mais testada é atrair insetos

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Entre 71 e cerca de 100 espécies de fungos, de um total de mais de 100 mil descritas, produzem luz verde. A reação usa uma luciferina feita a partir do ácido cafeico. Em um fungo brasileiro, o Neonothopanus gardneri, o brilho segue um relógio biológico e atinge o máximo à noite. Em um experimento, modelos de cogumelo com LED verde atraíram 42 insetos, contra 12 nos controles apagados.

O brilho de um fungo é uma reação química. A luciferina, chamada 3-hidroxihispidina, reage com oxigênio sob ação da enzima luciferase e emite luz verde, perto de 530 nanômetros. Em 2018, um grupo liderado por Kotlobay descreveu a via completa: quatro enzimas formam um ciclo que parte do ácido cafeico, um metabólito comum em plantas, produz a luciferina e depois regenera o ácido cafeico. A pergunta de por que isso existe foi testada em 2015 com o N. gardneri, conhecido no Brasil como flor-de-coco, da Mata dos Cocais. O brilho do micélio oscila em ciclos de cerca de 22 horas, com pico à noite. Modelos de resina com LED verde atraíram mais insetos que modelos apagados. Isso mostra atração; ainda não mostra que os insetos dispersem os esporos.

Um relógio que não liga com o calor

O ritmo de brilho do N. gardneri quase não muda com a temperatura (Q10 de 1,04, contra cerca de 2 em reações químicas comuns). É assim que um relógio biológico se mantém pontual, dia quente ou frio.

Uma luz feita de uma substância comum

O ponto de partida da luz fúngica é o ácido cafeico, um metabólito simples e muito difundido. Uma enzima o converte em hispidina, e outra o hidroxila, formando a luciferina, a 3-hidroxihispidina. Como a matéria-prima é comum, a via funciona em organismos de outros reinos, como a levedura que os pesquisadores fizeram brilhar em 2018.

Um ciclo que recicla o combustível

A luciferase combina a luciferina com oxigênio e libera luz verde, perto de 530 nanômetros. O produto oxidado é desfeito por uma quarta enzima, que devolve o ácido cafeico ao início do ciclo. Por isso o brilho pode ser sustentado sem acúmulo de resíduo, e a descrição completa da via só saiu em 2018.

Ritmo marcado pelo relógio, não pelo termômetro

No N. gardneri, o brilho do micélio sobe e desce em ciclos de cerca de 22 horas. Luciferina, redutase e luciferase variam juntas ao longo do ciclo, com amplitude de 3 a 4 vezes. Ligar a luz só à noite, quando ela é visível, é uma forma plausível de poupar energia.

O que o experimento não prova

O teste com modelos de resina mostrou que a luz verde atrai insetos, sobretudo moscas e besouros. Dali vem a hipótese de que eles levam esporos adiante em mata fechada, onde o vento é fraco. Falta medir o transporte dos esporos. Por isso a função ecológica segue como a explicação mais sustentada, e não como fato confirmado.

Como sabemos

Mecanismo químico e ritmo circadiano são bem documentados; a função ecológica é hipótese apoiada por um experimento.

Em debate: Função do brilho

Fontes

  1. Current Biology / PubMed Central — Circadian Control Sheds Light on Fungal Bioluminescence
    consultada em 05/10/2026
  2. PubMed Central — Chemistry in Fungal Bioluminescence: Theoretical Studies on Biosynthesis of Luciferin from Caffeic Acid and Regeneration of Caffeic Acid from Oxidized Luciferin
    consultada em 05/10/2026
  3. PNAS / Europe PMC — Genetically encodable bioluminescent system from fungi (Kotlobay et al., 2018)
    consultada em 05/10/2026
  4. California Academy of Sciences — Why Mushrooms Glow
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 4 imagem(ns) real(is) do Commons
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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