Linguística
Do alfabeto fenício ao latino: a longa cadeia de empréstimos que chegou às letras do português
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
As letras do português vêm de uma cadeia de empréstimos. Inscrições de cerca de 1800 a.C., no Egito, estão entre os mais antigos registros de escrita alfabética, feitos por falantes de línguas semíticas. Os fenícios consolidaram um alfabeto sem vogais, os gregos acrescentaram vogais, e os latinos receberam o sistema dos etruscos, que o haviam tomado de uma variante grega.
A ideia central do alfabeto é simples: um sinal para cada som de consoante, em vez de milhares de sinais para palavras ou sílabas. Ela surgiu no Egito do Reino Médio, a partir de sinais egípcios, mas por iniciativa de estrangeiros que ali trabalhavam e que falavam línguas semíticas. A passagem ao mundo mediterrâneo veio depois, pelas cidades fenícias da costa do atual Líbano. Os gregos adaptaram o sistema à sua língua, e dessa adaptação saiu a linhagem que levou às letras latinas. Algumas datas desta história são debatidas, sobretudo a da adoção pelos gregos e a natureza exata das inscrições do Sinai.
O G é mais jovem que o resto
O alfabeto latino que os romanos herdaram dos etruscos não tinha símbolo próprio para o som do g. Segundo a enciclopédia consultada, o G só foi criado em 312 a.C., por modificação do C, que antes cobria os dois sons.
O alfabeto nasce no Egito
John e Deborah Darnell, de Yale, acharam em 1999, no Uádi el-Hol, ao longo de uma antiga estrada do deserto ocidental, duas inscrições de cerca de uma dúzia de sinais cada, datadas de cerca de 1800 a.C. O estudo publicado por Darnell em 2006 liga a origem do alfabeto ao Reino Médio egípcio, a escribas militares e a auxiliares estrangeiros. Os valores dos sinais vêm da acrofonia: cada sinal passa a representar o som inicial do nome de um objeto na língua dos falantes semitas.
Do Sinai aos fenícios
A World History Encyclopedia situa por volta de 1700 a.C. um sistema alfabético usado por trabalhadores semitas no Egito, mas lembra que sua natureza exata é disputada. Por volta de 1100 a.C. surge a escrita fenícia, primeiro grande sistema fonêmico, com cerca de duas dezenas de letras e sem vogais.
Os gregos acrescentam as vogais
Os gregos adaptaram o alfabeto fenício e acrescentaram sinais de vogais, criando um sistema que registra consoantes e vogais. A data tradicional da adoção é o século VIII a.C., ligada às inscrições gregas mais antigas. Willemijn Waal defende, porém, que vários indícios apontam para uma data muito anterior, talvez o século XI a.C. A discussão é aberta, e o texto trata o século VIII como a posição convencional, não como fato incontestável.
Etruscos, latinos e o G
Segundo o verbete sobre paleografia latina, os latinos tomaram o alfabeto dos etruscos, e não diretamente dos gregos, o que explica traços como o uso do C para um som surdo. O mais antigo texto latino conhecido está numa estela achada em 1899 no Fórum Romano, do fim do século VII ou início do VI a.C. O G só foi criado em 312 a.C., a partir do C. A World History Encyclopedia diz que a variante grega de Cumae chegou à Itália e deu origem ao alfabeto latino.
Como sabemos
A cadeia fenício, grego, etrusco, latim é consenso; as datas iniciais e a da adoção grega são aproximadas ou disputadas e aparecem assim no texto.
Em debate: Onde e como exatamente nasceu o alfabeto é discutido. A leitura de John Darnell o situa no Egito do Reino Médio, entre escribas militares e auxiliares semitas. A natureza do sistema protossinaítico segue disputada.
Em debate: A data em que os gregos adotaram o alfabeto fenício também divide os especialistas: a posição tradicional é o século VIII a.C., e Willemijn Waal argumenta por uma introdução bem mais antiga, até o século XI a.C.
- Evidência forte: Duas inscrições do Uádi el-Hol, no Egito, datam de cerca de 1800 a.C. e estão entre os mais antigos exemplos de escrita alfabética conhecidos. [1] [2]
- Interpretação: Os sinais das inscrições do Uádi el-Hol derivam do hierático usado por escribas militares do Reino Médio, e o alfabeto provavelmente surgiu do contato desses escribas com auxiliares falantes de outras línguas. [1]
Interpretação de John Darnell, descobridor das inscrições, com apoio em inscrições hieráticas contemporâneas. - Estimativa: O alfabeto pode existir de duas a três centenas de anos antes das inscrições do Uádi el-Hol. [2]
Estimativa baseada na análise das formas dos caracteres egípcios. - Em debate: Um sistema alfabético protossinaítico, atribuído a trabalhadores semitas no Egito, é situado por volta de 1700 a.C.; sua natureza exata é disputada. [3]
A World History Encyclopedia diz que a natureza do sistema segue disputada; datas variam de 1850 a 1700 a.C. conforme a fonte. - Estimativa: A escrita fenícia surge por volta de 1100 a.C., com cerca de duas dezenas de letras. [3]
A cronologia da transição do protocananeu ao fenício é aproximada. - Consenso científico: Os gregos adaptaram o sistema fenício acrescentando vogais por volta de 800 a.C. [3]
- Em debate: Estudiosos clássicos aceitam tradicionalmente a introdução do alfabeto na Grécia no século VIII a.C., mas há proposta de data tão antiga quanto o século XI a.C. [4]
A proposta antiga é defendida por Willemijn Waal com evidências arqueológicas, epigráficas e linguísticas. - Consenso científico: Os latinos receberam o alfabeto dos etruscos, e não diretamente dos gregos; o alfabeto tem base grega ocidental. [5]
- Estimativa: O mais antigo texto latino conhecido está numa estela achada em 1899 no Fórum Romano, datada do fim do século VII ou início do VI a.C. [5]
A datação da estela oscila entre o fim do século VII e o início do VI a.C. - Fato estabelecido: O G latino só foi criado em 312 a.C., por modificação do C. [5]
- Estimativa: Por volta de 2700 a.C. a escrita egípcia tinha cerca de 22 hieróglifos para sílabas iniciadas por uma só consoante. [3]
Data e número aproximados, segundo a World History Encyclopedia. - Consenso científico: A variante grega de Cumae chegou à Itália e deu origem ao alfabeto latino. [3]
Fontes
- Yale University, Near Eastern Languages & Civilizations — Two Early Alphabetic Inscriptions from the Wadi el-Hol: New Evidence for the Origin of the Alphabet from the Western Desert of Egypt
consultada em 04/10/2026 - Archaeology (Archaeological Institute of America) — First Alphabet Found in Egypt
consultada em 04/10/2026 - World History Encyclopedia — Alphabet
consultada em 04/10/2026 - Aegeus Society (Aegean Studies) — On the "Phoenician letters": the case for an early transmission of the Greek alphabet
consultada em 04/10/2026 - Encyclopedia.com (New Catholic Encyclopedia) — Paleography, Latin
consultada em 04/10/2026
Histórico de alterações
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