Botânica

Como a água sobe numa árvore de 100 metros: puxada pela evaporação, sob pressão negativa

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Plantas em ação

A água sobe pelo xilema, os tubos finos da madeira, puxada pela evaporação nas folhas. Pela teoria da coesão-tensão, a perda de água reduz a pressão na folha e essa tração se transmite por colunas contínuas de água até a raiz. Por isso a pressão no xilema fica abaixo de zero: a água está sob tensão, não sendo empurrada. Medidas de pressão, sons de bolhas e imagens de raios X sustentam o quadro. Uma minoria de pesquisadores ainda contesta partes dele.

O xilema é o conjunto de tubos microscópicos da madeira por onde sobe a água. Na teoria da coesão-tensão, proposta por Böhm (1893) e por Dixon e Joly (1894), a água evapora das folhas, a pressão do líquido na folha cai e essa pressão reduzida puxa a água do solo pelo xilema. Como as moléculas de água ficam unidas entre si (coesão), a tração passa por colunas contínuas da raiz à copa. Para isso a pressão absoluta no xilema precisa ficar abaixo de zero: o líquido está sob tensão, num estado instável (metaestável) em relação ao vapor. O processo é passivo: o motor é a evaporação, e não uma bomba da planta.

Medir a tração apertando a folha

A câmara de pressão de Scholander mede a tensão do xilema ao contrário: aplica pressão de gás sobre a folha cortada até a seiva ser expulsa do xilema. Em 1965, esse método mostrou pressões da seiva negativas em plantas de florestas úmidas e de desertos.

Uma previsão estranha: água líquida sob tensão

A teoria de Böhm, Dixon e Joly diz que a água do xilema é tracionada, como uma corda, e não empurrada. Para vencer a gravidade e o atrito, a tensão chega a vários MPa. Só o peso de uma coluna de 100 m pede cerca de 1 MPa, a partir de 0,01 MPa por metro. Água nesse estado é metaestável: pode virar vapor a qualquer perturbação. Por isso a teoria só convence se alguém medir pressão negativa e mostrar que a coluna às vezes rompe.

Medir uma pressão negativa

A câmara de Scholander (1965) mede a pressão de equilíbrio em ramos cortados e a toma como a tensão do xilema. Ela deu valores negativos em todos os ambientes, de cerca de -0,4 MPa em floresta úmida a cerca de -8 MPa no deserto, e um gradiente que acompanha a altura em coníferas altas. Críticos como Zimmermann e Bentrup apontam que o método exige cortar o ramo e não leria sempre a tensão real; usam a sonda de pressão como alternativa.

Ouvir e ver a coluna se romper

Quando entra ar num tubo, a tensão se solta e o evento pode ser ouvido por sensores de emissão acústica. Mas o tecido faz outros ruídos, e a ligação com embolia exige confirmação por imagem. A microtomografia de raios X faz essa checagem: mostra tubos cheios de água e de ar em plantas inteiras e vivas. No estudo de Choat e colegas (2016), ela confirmou o método da centrífuga em espécies de vasos curtos e mostrou que ele superestima a vulnerabilidade no carvalho.

O que ainda se discute

A minoria que contesta a teoria baseia-se em sondas de pressão numa liana de 10 m, e a maioria dos botânicos a considera estabelecida. O debate vivo é sobre métodos: como evitar artefatos ao medir a embolia. Para a altura, Koch e colegas (2004) estimaram um máximo de 122 a 130 m em sequoias-costeiras, e sugeriram que o estresse hídrico nas folhas, por gravidade e resistência do trajeto, pode limitar o crescimento. É hipótese dos autores, e o limite tem pauta própria.

Como sabemos

O mecanismo e os métodos têm respaldo em artigo de pesquisa e revisões abertas, mas vários resultados vêm de resumos e a descrição do debate depende de um texto de defesa.

Em debate: A teoria da coesão-tensão é a explicação predominante, mas um grupo de pesquisadores (Zimmermann e colegas) contesta partes dela. Com sonda de pressão no xilema, eles registraram tensões baixas numa liana de 10 m e questionam que a câmara de pressão reflita a tensão real do xilema. Defensores da teoria discordam e consideram a tensão negativa estabelecida.

Fontes

  1. Protoplasma — Water ascent in trees and lianas: the cohesion-tension theory revisited in the wake of Otto Renner
    Bentrup, F.-W. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s00709-016-1009-4
  2. Science — Sap Pressure in Vascular Plants: Negative hydrostatic pressure can be measured in plants
    Scholander, P. F.; Bradstreet, E. D.; Hemmingsen, E. A.; Hammel, H. T. · 1965 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.148.3668.339
  3. Nature — The limits to tree height
    Koch, G. W.; Sillett, S. C.; Jennings, G. M.; Davis, S. D. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/nature02417
  4. Plant Physiology — Noninvasive Measurement of Vulnerability to Drought-Induced Embolism by X-Ray Microtomography
    Choat, B.; Badel, E.; Burlett, R.; Delzon, S.; Cochard, H.; Jansen, S. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1104/pp.15.00732
  5. Plant Methods — X-ray microtomography and linear discriminant analysis enable detection of embolism-related acoustic emissions
    De Baerdemaeker, N. J. F.; Stock, M.; Van den Bulcke, J.; et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/s13007-019-0543-4
  6. Nature — The transpiration of water at negative pressures in a synthetic tree
    Wheeler, T. D.; Stroock, A. D. · 2008 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/nature07226
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