Ciências da Terra

Afar: como se mede um continente se abrindo, do dique de 2005 às intrusões de 2024–2025

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Tectônica de placas

Em Afar, na Etiópia, onde três riftes se encontram, a abertura da crosta continental foi acompanhada por satélite, GPS e sismômetros. Em setembro de 2005, um dique (fratura preenchida por magma) de até cerca de 10 m de espessura e 65 km de comprimento invadiu a crosta superior; nos cinco anos seguintes vieram 13 diques menores. Nas medições de Afar, é a intrusão de magma, mais que a falha, que responde pela maior parte da abertura.

Um rifte continental é uma faixa onde a litosfera é esticada. Os posts sobre as fronteiras de placas e sobre a abertura do Atlântico Sul mostram o que ele é e como termina; este trata do que se mede hoje, com o processo em andamento. Em Afar, o Mar Vermelho, o Golfo de Áden e o Rifte Etíope Principal se encontram num ponto triplo. O magma sobe pela crosta em diques, que o radar de satélite (InSAR, que compara imagens do mesmo lugar em datas diferentes e revela deslocamentos de milímetros), o GPS e a rede de sismômetros conseguem localizar. Cada episódio dura anos; a transição para um oceano leva milhões.

O tamanho dos diques segue uma lei parecida com a dos terremotos

Numa análise estatística dos 14 diques do episódio Manda-Hararo e dos de Krafla, na Islândia, as dimensões seguem uma lei de potência análoga à relação de Gutenberg-Richter dos terremotos. É um achado de 2014 sobre esses dois casos, não uma regra provada para todo rifte.

O episódio de 2005: um dique, depois 13

Em setembro de 2005, um dique de até 10 m de espessura e cerca de 65 km de comprimento invadiu a crosta superior no segmento Dabbahu–Manda Hararo, com uma pequena erupção de cinza na ponta norte. Nos cinco anos seguintes vieram 13 diques menores, cada um instalado em poucas horas, e três chegaram à superfície com lava basáltica. O mesmo conjunto serviu depois para comparar episódios (14 diques ao todo, segundo outro estudo).

Como sabemos: o que cada instrumento enxerga

O radar de satélite mapeia o deslocamento do solo em toda a área; o GPS dá a série de tempo em pontos fixos; os sismômetros locais mostram o início de cada intrusão. A divisão de ondas S entra de outra maneira: dá o estado de fraturamento da crosta superior. Cada método tem limite, e as conclusões vêm de combiná-los. O formato de um dique em profundidade, por exemplo, é sempre resultado de um modelo.

Depois do episódio: soleiras profundas e extensão acelerada

Em 2024, medidas de satélite mostraram que quatro soleiras de magma, a 9–28 km de profundidade, inflaram juntas e levantaram uma zona de cerca de 100 km de largura, com picos de cerca de 8 mm por ano no fim de 2016. Os autores sugerem uma fonte comum no manto. O mesmo trabalho vê, a leste de Dabbahu–Manda Hararo, uma deformação compatível com extensão acelerada após 2005–2010.

2024–2025: Fentale–Dofen e a resposta científica

Em Fentale–Dofen, no norte do Rifte Etíope Principal, diques de até cerca de 50 km de comprimento causaram mais de 300 terremotos de magnitude 4 ou maior e a evacuação de 75.000 pessoas, sem erupção. O radar foi adquirido a cada 12 dias pelo Sentinel-1 e a cada 1–8 dias pelo COSMO-SkyMed. O trabalho citado é uma análise preliminar, com perguntas científicas em aberto.

O que ainda se discute

Afar tem muito magma, o que favorece a abertura por diques. Em margens pobres em magma, a ruptura passa por outros processos, e nada garante que o roteiro de Afar sirva ali. Os próprios autores de 2011 chamavam de controversas as escalas de tempo e de espaço em que a deformação mecânica ou o magma concentram a ruptura. Os episódios medidos duram anos, e a passagem a um oceano leva milhões; a ligação entre as duas escalas ainda é inferida.

Como sabemos

Os números centrais vêm de uma revisão de 2021 e de artigos abertos lidos por inteiro, mas o estudo original de 2005 (Wright et al., 2006) não foi aberto.

Em debate:

Fontes

  1. Nature Communications — Volcanic activity and hazard in the East African Rift Zone
    Biggs, J.; Ayele, A.; Fischer, T. P.; Fontijn, K.; Hutchison, W.; Kazimoto, E.; Whaler, K.; Wright, T. J. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-021-27166-y
  2. Nature Communications — Mapping the evolving strain field during continental breakup from crustal anisotropy in the Afar Depression
    Keir, D.; Belachew, M.; Ebinger, C. J.; Kendall, J.-M.; Hammond, J. O. S.; Stuart, G. W.; Ayele, A.; Rowland, J. V. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/ncomms1287
  3. Scientific Reports — Dike intrusions during rifting episodes obey scaling relationships similar to earthquakes
    Passarelli, L.; Rivalta, E.; Shuler, A. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/srep03886
  4. Nature Communications — Simultaneous rift-scale inflation of a deep crustal sill network in Afar, East Africa
    La Rosa, A.; Pagli, C.; Wang, H.; Sigmundsson, F.; Pinel, V.; Keir, D. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-024-47136-4
  5. Bulletin of Volcanology — Scientific response to the 2024–2025 dyke intrusions in the Fentale-Dofen Region, Ethiopia: geophysical monitoring, surface manifestations, and hazard mapping
    Lewi, E.; Biggs, J.; Ayele, A.; Wright, T.; Pagli, C.; Keir, D. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s00445-025-01852-x
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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