Evolução

Aedes aegypti no Brasil: duas mutações no canal de sódio tornaram-se comuns após décadas de piretroides

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

No Aedes aegypti brasileiro, duas trocas de aminoácido no canal de sódio, Val1016Ile e Phe1534Cys, reduzem o efeito dos piretroides. Em levantamento de 2017–2018 em 123 municípios, a frequência mediana dos alelos kdr foi de 83,1%. A seleção por inseticidas explica o padrão, mas o uso doméstico, difícil de medir, também pesa.

Os piretroides atuam sobre o canal de sódio dependente de voltagem das células nervosas do inseto, causando espasmos e paralisia (efeito knockdown). Mutações kdr (knockdown resistance) trocam aminoácidos nesse canal e reduzem a ligação do inseticida. Em A. aegypti, só as posições 1016 e 1534 estão claramente ligadas à resistência. No Brasil há três versões do gene: a selvagem (NaVS), a que traz só a troca em 1534 (NaVR1) e a que traz as duas (NaVR2). A mutação já existia em baixa frequência; o uso de piretroides em campanhas e em produtos domésticos favoreceu quem a carregava.

Resistência que some no laboratório

A primeira linhagem de mosquitos com Wolbachia solta no Rio de Janeiro era resistente a piretroides por cruzamento com mosquitos locais. Durante gerações em laboratório, sem inseticida, as frequências kdr caíram e a linhagem voltou a ser suscetível.

O que mudou no gene e por que isso importa

O canal de sódio é a proteína-alvo dos piretroides. Duas trocas, valina por isoleucina na posição 1016 e fenilalanina por cisteína na 1534, ficam na região do canal que interage com o inseticida. No Brasil, a 1016 aparece sempre junto da 1534 (alelo NaVR2); a 1534 também ocorre sozinha (NaVR1). Mosquitos com essas versões sobrevivem a doses que matariam os suscetíveis, e é essa diferença de sobrevivência que a seleção natural amplifica ao longo das gerações.

Como sabemos: genotipagem em série e nacional

Os dados vêm de PCR alelo-específico e de ensaios de SNP em mosquitos individuais. A comparação entre coletas feitas em anos diferentes nos mesmos locais mostra a mudança de frequência no tempo (2014). O levantamento de 2017–2018 amplia a escala para 123 municípios. Limites: a genotipagem mede o alelo, não a resistência total; outros mecanismos, como enzimas de detoxificação, também contribuem, e a amostragem não cobre todos os municípios.

Persistência sem uso oficial: o que o estudo paulista mostra e não mostra

São Paulo interrompeu o uso público de piretroides contra adultos antes do resto do país, e o monitoramento de 2004 a 2015 mostrou resistência persistente e alelo suscetível em queda. Os autores citam o uso doméstico e privado como possível pressão seletiva continuada. O custo adaptativo do NaVR2 em ambiente sem inseticida, medido em laboratório, indicaria queda da frequência; no campo isso não ocorreu, o que sugere que a pressão continuou ou que o custo é menor do que no laboratório. Qual das hipóteses pesa mais não foi medido nos três estudos.

Implicações para o controle

Os autores do estudo paulista defendem controle integrado, e não apenas químico, já que o inseticida continua sendo usado em surtos. Os dados de frequência kdr servem como alerta precoce: o monitoramento genético pode indicar populações em que o piretroide tende a falhar antes de a resistência estar plenamente estabelecida. Isto é leitura dos artigos, não recomendação de produto ou dose.

Como sabemos

Fatos sobre distribuição e aumento vêm de três artigos abertos lidos no texto integral; as explicações da persistência são interpretações dos autores.

Fontes

  1. Parasites & Vectors — Distribution and dissemination of the Val1016Ile and Phe1534Cys Kdr mutations in Aedes aegypti Brazilian natural populations
    Linss, J. G. B. et al. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/1756-3305-7-25
  2. Scientific Reports — Kdr genotyping in Aedes aegypti from Brazil on a nation-wide scale from 2017 to 2018
    Costa, M. M. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-020-70029-7
  3. PLoS Neglected Tropical Diseases — Pyrethroid resistance persists after ten years without usage against Aedes aegypti in governmental campaigns: Lessons from São Paulo State, Brazil
    Macoris, M. L. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pntd.0006390
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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