História da África
Em 1º de março de 1896, o exército etíope de Menelik II derrotou a Itália em Adwa e garantiu a independência
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Perto da cidade de Adwa, no norte da Etiópia, o exército do imperador Menelik II, estimado em mais de 100 mil homens, derrotou em 1º de março de 1896 uma força italiana de cerca de 14,5 mil soldados. A Itália perdeu mais de 6 mil mortos e milhares de prisioneiros. Pelo Tratado de Adis Abeba, em outubro, abandonou a pretensão de impor um protetorado. Em 1914, a Etiópia e a Libéria eram os únicos países africanos fora dos impérios europeus.
A guerra começou com um tratado de duas versões. Em 2 de maio de 1889, Menelik assinou com a Itália o Tratado de Wuchale. O artigo XVII, na leitura etíope, permitia ao imperador usar o governo italiano nas relações com outros países, se quisesse; na leitura do primeiro-ministro italiano Francesco Crispi, obrigava-o a isso, o que equivalia a um protetorado. Menelik repudiou o artigo em 1890 e o tratado inteiro em 1893. Enquanto isso, armou suas tropas com fuzis modernos e reuniu sob seu comando contingentes de quase todas as regiões do país. Quando a Itália avançou a partir da Eritreia, em 1895, encontrou um exército numeroso e bem armado, que ainda espalhou informações falsas sobre seu tamanho. Em Adwa, as colunas italianas avançaram desorganizadas por terreno difícil e foram cercadas. A derrota derrubou o governo de Crispi e teve eco imediato em toda a diáspora africana.
Taytu e a fonte de Mekele
Antes de Adwa, tropas italianas resistiam num forte em Mekele. Segundo a crônica da corte etíope, foi a imperatriz Taytu Betul quem mandou ocupar a fonte que abastecia o forte. Sem água, a guarnição pediu para sair e foi liberada mediante acordo, no início de 1896.
Um tratado, duas leituras
O imperador Yohannes IV morreu em 1889, e Menelik, rei de Shewa, assegurou para si o título imperial. Nos anos anteriores, recebera da Itália armas, munição e dinheiro. Em 2 de maio de 1889, assinou o Tratado de Wuchale, que incluía a promessa de um empréstimo italiano e o reconhecimento da Eritreia como colônia da Itália. O artigo XVII, na versão em amárico, dizia que o imperador podia recorrer ao governo italiano nas relações com outras potências. A versão italiana tornava isso obrigatório, e Roma passou a tratar a Etiópia como protetorado. Menelik repudiou o artigo em setembro de 1890 e o tratado inteiro em 1893.
A guerra de 1895–1896
A ofensiva italiana a partir da Eritreia começou no início de 1895 e teve sucessos iniciais. No fim do ano, grandes exércitos etíopes ameaçavam os postos italianos. Menelik reuniu contingentes de quase todas as regiões do país, armados com fuzis modernos, e espalhou relatos falsos de que suas tropas eram poucas e divididas. Entre dezembro de 1895 e o início de 1896, os etíopes cercaram o forte italiano de Mekele, evacuado depois de ficar sem água. Em 7 de fevereiro de 1896, o general Oreste Baratieri avistou o exército de Menelik, mas, sem comida, roupa e mapas adequados, preferiu esperar.
O dia da batalha
Em 28 de fevereiro, um telegrama furioso de Crispi pressionou Baratieri, que acabou convencido por seus generais a atacar. Em 1º de março, dia de São Jorge, as colunas italianas avançaram em direção a Adwa. Desorganizadas e incapazes de se orientar no terreno montanhoso, foram cercadas pelos etíopes. O exército italiano teve mais de 6 mil mortos, pouco mais da metade italianos e o restante askaris, os soldados eritreus a serviço da Itália, além de 3 mil a 4 mil prisioneiros. Do lado etíope, morreram mais de 5 mil homens. Essas cifras são estimativas e variam bastante de uma fonte para outra.
Taytu Betul
A imperatriz Taytu, mulher de Menelik, defendia uma linha dura contra a Itália. Segundo a crônica de Gabre-Selassie, cronista da corte, foi dela a ideia de ocupar a fonte que abastecia o forte de Mekele. Em Adwa, ainda segundo a crônica, Taytu comandou fuzileiros e peças de artilharia. Um veterano relatou que ela reuniu milhares de mulheres do acampamento para levar água aos combatentes, enquanto outras cuidavam dos feridos. Esses relatos vêm de fontes da própria corte etíope e devem ser lidos como tal, mas a participação de Taytu na política da guerra é reconhecida pelos historiadores.
A paz e o legado
A derrota derrubou o governo de Crispi. Pelo Tratado de Adis Abeba, de 26 de outubro de 1896, o Tratado de Wuchale foi declarado nulo, e a Itália abandonou a pretensão de protetorado. Menelik, por sua vez, não avançou sobre a Eritreia e aceitou na prática a fronteira do rio Mereb. Até 1908, tratados com Itália, França e Grã-Bretanha fixaram as fronteiras do império. Em 1914, Etiópia e Libéria eram os únicos territórios africanos fora dos impérios europeus. A vitória teve eco imediato em toda a diáspora africana.
Como sabemos
Data, desfecho e tratados são consenso e foram conferidos na Britannica, na Harvard University Press e em obra acadêmica; efetivos e perdas aparecem como estimativas com faixa.
Em debate: Os efetivos e as perdas variam muito entre as fontes: a força italiana aparece como 14,5 mil (Britannica) ou cerca de 20 mil (Milkias e Metaferia); o exército etíope, de cerca de 70 mil a mais de 100 mil; as perdas italianas, de pouco mais de 6 mil a perto de 15 mil mortos, conforme se contem ou não os askaris eritreus.
Em debate: O alcance exato do artigo XVII: se a versão italiana foi uma fraude deliberada do negociador Pietro Antonelli ou um problema de tradução é discutido; o fato de as duas versões divergirem não é.
Em debate: O papel militar de Taytu é conhecido sobretudo pela crônica oficial da corte e por relatos de veteranos, fontes favoráveis ao casal imperial.
- Fato estabelecido: A Batalha de Adwa ocorreu em 1º de março de 1896, perto de Adwa, no norte da Etiópia, entre o exército de Menelik II e forças italianas. [1] [2] [3]
- Estimativa: O exército de Menelik em Adwa somava mais de 100 mil homens. [1] [3] [4]
Britannica, EBSCO e Milkias falam em cerca de 100 mil ou mais; outras estimativas começam em torno de 70 mil. - Estimativa: Baratieri avançou sobre Adwa com cerca de 14,5 mil homens. [1]
Britannica: 14.500. A coletânea de Milkias e Metaferia fala em cerca de 20 mil, metade europeus e metade soldados eritreus (askaris). Os números variam conforme a fonte. - Estimativa: Mais de 6 mil homens do exército italiano morreram, pouco mais da metade italianos e o restante askaris; entre 3 mil e 4 mil foram feitos prisioneiros. [1]
Cifras da Britannica. A própria coletânea de Milkias e Metaferia registra que os números de mortos, feridos e prisioneiros variam muito entre os relatos. - Estimativa: Mais de 5 mil soldados etíopes morreram e 8 mil ficaram feridos. [1]
Britannica; outras fontes chegam a cerca de 7 mil mortos. - Fato estabelecido: O Tratado de Adis Abeba, assinado em 26 de outubro de 1896, anulou o Tratado de Wuchale, e a Itália abandonou a pretensão de protetorado sobre a Etiópia. [1] [3]
- Consenso científico: Em 1914, os territórios da Etiópia e da Libéria eram os únicos do continente fora de algum império europeu. [5]
- Fato estabelecido: O Tratado de Wuchale foi assinado em 2 de maio de 1889. [1] [4]
- Consenso científico: O artigo XVII do Tratado de Wuchale foi lido por Menelik como uma faculdade de usar o governo italiano nas relações externas e por Crispi como uma obrigação, o que implicava um protetorado; as versões em amárico e italiano diferiam. [1] [4]
- Fato estabelecido: Menelik repudiou o artigo XVII em setembro de 1890 e o tratado inteiro em 1893. [1] [3]
Britannica dá setembro de 1893 para o repúdio do tratado; a coletânea de Milkias e Metaferia dá 12 de fevereiro de 1893. O texto usa só o ano. - Fato estabelecido: Menelik armou suas forças com armamento moderno e espalhou informações falsas que subestimavam o tamanho de seu exército. [1]
- Evidência forte: Menelik reuniu contingentes de quase todas as regiões do país sob seu comando. [3]
- Fato estabelecido: A Itália iniciou a ofensiva militar contra a Etiópia a partir da Eritreia no começo de 1895. [1] [6]
- Consenso científico: Em Adwa, as colunas italianas avançaram desorganizadas, com suprimentos insuficientes e sem mapas confiáveis, por terreno difícil. [1] [3]
- Fato estabelecido: A derrota de Adwa derrubou o governo de Francesco Crispi. [4]
- Consenso científico: Figuras de toda a diáspora africana compreenderam de imediato o significado de Adwa. [2]
- Evidência forte: Em Mekele, por conselho de Taytu, os etíopes ocuparam a fonte que abastecia o forte italiano; sem água, a guarnição negociou sua saída. [3] [4]
O papel de Taytu vem da crônica do cronista da corte Gabre-Selassie, citada por Milkias e Metaferia. A EBSCO confirma a falta de suprimentos e o cessar-fogo negociado, sem mencionar Taytu. - Evidência forte: O cerco de Mekele durou de dezembro de 1895 ao início de 1896. [3]
Milkias e Metaferia: de 21 de dezembro de 1895 a 2 de fevereiro de 1896 (outras passagens da mesma obra divergem). - Fato estabelecido: Em 7 de fevereiro de 1896, Baratieri avistou as forças de Menelik e preferiu esperar; em 28 de fevereiro, um telegrama de Crispi o pressionou, e seus generais o convenceram a atacar. [1]
- Evidência forte: O ataque italiano começou no dia de São Jorge, data importante para a Igreja etíope. [3]
- Evidência forte: Segundo a crônica de Gabre-Selassie, Taytu dirigiu fuzileiros e artilharia no campo de Adwa; relatos de veteranos descrevem milhares de mulheres levando água aos combatentes e cuidando dos feridos. [3]
Baseado em crônicas e relatos etíopes citados por Milkias e Metaferia; os números de mulheres vêm de um único relato. - Consenso científico: Taytu era casada com Menelik e tinha posição dura contra os italianos. [2] [3]
- Estimativa: Os etíopes capturaram 56 peças de artilharia e mais de 10 mil fuzis do exército italiano. [3]
Números de uma única obra; não conferidos em segunda fonte. - Evidência forte: Pelo acordo de paz, Menelik aceitou de fato a fronteira no rio Mereb, mantendo a Eritreia sob controle italiano. [3] [1]
Britannica: a Eritreia foi delimitada por tratado em setembro de 1900. - Fato estabelecido: Tratados com Itália, França e Grã-Bretanha até 1908 fixaram as fronteiras da Etiópia com os territórios vizinhos. [1] [6]
- Interpretação: Adwa foi a primeira derrota esmagadora de uma potência europeia por forças africanas na era colonial. [1]
Avaliação da Britannica, citada como tal; não aparece no texto principal como fato. - Fato estabelecido: Yohannes IV morreu em 1889 e Menelik, rei de Shewa, assegurou o título imperial, depois de ter recebido da Itália armas, munição e dinheiro. [1]
- Fato estabelecido: O Tratado de Wuchale incluía a promessa de um empréstimo italiano e o reconhecimento etíope da Eritreia como colônia italiana. [1]
- Evidência forte: Os etíopes cercaram as unidades italianas em Adwa. [3]
Fontes
- Encyclopaedia Britannica — Battle of Adwa
consultada em 03/10/2026 - Harvard University Press — The Battle of Adwa: African Victory in the Age of Empire (apresentação do livro)
consultada em 03/10/2026 - Coletânea acadêmica com Richard Pankhurst, Harold Marcus e outros; PDF no acervo da South African History Online — The Battle of Adwa: Reflections on Ethiopia's Historic Victory Against European Colonialism (Algora, 2005)
consultada em 03/10/2026 - EBSCO Research Starters — Ethiopia Repels Italian Invasion
consultada em 03/10/2026 - Encyclopaedia Britannica — Scramble for Africa
consultada em 03/10/2026 - Library of Congress, Federal Research Division (reprodução em countrystudies.us) — Ethiopia: A Country Study — The Reign of Menelik II, 1889–1913
consultada em 03/10/2026
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