Química

Por que o aço inox não enferruja: uma película de óxido de cromo, de poucos nanômetros, que se refaz

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Ciência do cotidiano

O aço inoxidável tem pelo menos 10,5% de cromo, e esse cromo forma na superfície uma película de óxido de alguns nanômetros que freia a corrosão. Se a película é riscada, ela se refaz quando há oxigênio. O inox falha onde há cloretos, como o sal: eles afinam a película e favorecem pites, pequenas cavidades de corrosão localizada.

No aço comum, a corrosão segue o mecanismo da pilha de água e oxigênio descrito no post sobre a ferrugem. No inox, o cromo da liga reage com o oxigênio e forma uma película passiva: uma camada de óxido muito fina, rica em cromo, que atua como barreira entre o metal e o meio. Por isso se diz que o inox é passivado: a proteção não é tinta nem revestimento aplicado, é uma camada que o próprio metal produz na superfície e refaz se for danificada. A definição de norma é uma liga de ferro com pelo menos 10,5% de cromo. 'Inox' é uma família, com tipos como 304 e 316, de composição e desempenho diferentes.

Uns 20 mil vezes mais fina que um cabelo

Medida por microscópio de força atômica, a película de um aço SUS304 em água tinha em média 4,85 nm. Um fio de cabelo, de cerca de 100 µm, é uns 20 mil vezes mais espesso (cálculo nosso, com essa espessura suposta para o fio).

Uma película de poucos nanômetros

Num aço SUS304, a película examinada em seção ao microscópio eletrônico tinha cerca de 3,8 nm e era amorfa, sem estrutura cristalina; nela havia oxigênio e cromo, com mais cromo do que no metal logo abaixo. Em água, a medida por microscopia de força atômica deu média de 4,85 nm. A camada interna, rica em cromo, é a reconhecida como barreira. São medidas de uma amostra: a espessura muda com o pH, o meio e o tipo de aço.

Como sabemos: riscar e medir

Wang e colegas retiraram a película original com ácido sulfúrico diluído, deixaram uma nova se formar em solução e mediram a diferença de altura em relação a um bloco de ouro, que não se altera. Charazińska e colegas riscaram aços 304 e 316 em escala nanométrica e acompanharam a profundidade do risco por microscopia de força atômica: a reconstrução levou de 1 a 3 horas e depois a espessura se estabilizou. O limite: são ensaios de laboratório, em amostras pequenas.

Quando o inox falha: cloretos e pites

Em soluções com mais cloreto, a película observada era mais fina, e o aço 304L é descrito como propenso a pites e à corrosão em frestas. É uma corrosão localizada, que se concentra em pontos em vez de se espalhar de modo uniforme. Para o 304L, uma referência citada recomenda manter o cloreto na solução abaixo de 150 mg/L. Cloreto é o íon do sal de cozinha, o que explica por que ambientes salinos são o caso típico de falha do inox.

O papel do molibdênio

O índice PRE, usado para ranquear a resistência a pites, considera o cromo e o molibdênio e nenhum outro elemento na sua forma original. O aço 316 já contém molibdênio, e os superausteníticos, feitos para resistir melhor à corrosão localizada, têm PRE bem maior. Um relato de Pardo, citado por Charazińska e colegas, indica que o molibdênio aumentou a resistência em meio ácido. O PRE é um índice de classificação, não uma garantia de desempenho em cada ambiente.

Como sabemos

Mecanismo e números sustentados por cinco artigos abertos, mas o limiar de 10,5% vem de um artigo de engenharia e dois dados são de segunda mão.

Fontes

  1. Scientific Reports — Experimental, numerical, and ARX model-based prediction of axial buckling capacity in stainless steel cylindrical shells
    Zeybek, Ö.; Çelik, A. İ.; Özkılıç, Y. O. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-026-51044-6
  2. Scientific Reports — Using Atomic Force Microscopy to Measure Thickness of Passive Film on Stainless Steel Immersed in Aqueous Solution
    Wang, R.; Li, Y.; Xiao, T.; Cong, L.; Ling, Y.; Lu, Z.; Fukushima, C.; Tsuchitori, I.; Bazzaoui, M. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-019-49747-0
  3. Materials (MDPI) — Reconstruction of the Passive Layer of AISI 304 and 316 Steel After Scratching
    Charazińska, S.; Sikora, A.; Malczewska, B.; Lochyński, P. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3390/ma17246238
  4. Materials (MDPI) — Study of the Corrosion Behavior of Stainless Steel in Food Industry
    Rossi, S.; Leso, S. M.; Calovi, M. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3390/ma17071617
  5. Materials (MDPI) — Metallurgy, Properties and Applications of Superaustenitic Stainless Steels (SASSs)
    Malandruccolo, A.; Menapace, C.; Giroletti, I. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3390/ma18133079
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)

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