Paleontologia

Acanthostega e Ichthyostega: tetrápodes do Devoniano com sete ou oito dedos e o que isso diz sobre os dedos

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Em 1990, fósseis da Groenlândia mostraram que a pata dianteira de Acanthostega tinha oito dedos e a traseira de Ichthyostega, sete, ambos do Devoniano Superior. Isso indica que o padrão de cinco dedos não era o ponto de partida dos tetrápodes. Análises posteriores apontam que Acanthostega passou ao menos a juventude na água, e que Ichthyostega tinha membros posteriores possivelmente pouco eficazes em terra.

Tetrápodes são os vertebrados com membros providos de dedos: anfíbios, répteis, aves e mamíferos, inclusive nós. Os dedos são hastes de esqueleto interno, paralelas e segmentadas, na ponta do membro; as nadadeiras dos peixes, ao contrário, carregam raios de esqueleto dérmico (lepidotríquios), ausentes nos membros de tetrápodes. Durante muito tempo se tratou o número cinco como o ponto de partida. Os fósseis de Acanthostega e Ichthyostega, do Devoniano Superior da Groenlândia Oriental, mostraram membros com mais de cinco dedos (polidactilia). O Tiktaalik, de nadadeira com raios, já tem post próprio; aqui o foco são os membros com dedos que vieram depois dele.

Seis, sete, oito: o cinco veio depois

A descrição de 1990 também citou o Tulerpeton, da Rússia, com seis dedos. Segundo um comentário de 2015, tetrápodes mantiveram seis dedos por milhões de anos, até o padrão de cinco se firmar por volta do fim do Devoniano.

O que conta como dedo

Na anatomia de membros, dedos são elementos de esqueleto interno, paralelos, não ramificados e segmentados, na ponta do membro. Nas nadadeiras de peixes como o Tiktaalik há raios de esqueleto dérmico (lepidotríquios), que os membros de tetrápodes não têm. Estudos de desenvolvimento em tubarão-gato e peixe-zebra sugerem que a origem dos dedos envolveu células da ponta da nadadeira, marcadas pelo gene Hox13, passando a formar cartilagem em novo padrão. Isso é hipótese baseada em animais atuais.

Como sabemos quantos dedos eram

A contagem vem de fósseis: novos espécimes da Groenlândia mostraram a pata dianteira de Acanthostega com oito dedos e a traseira de Ichthyostega com sete. Fósseis assim são esparsos, e o registro do fim do Devoniano, quando o padrão de cinco dedos se firmou, é fragmentado. Há também diferenças de interpretação: a rotulagem dos ossos do pulso e da mão varia entre autores, e uma leitura de Ichthyostega, relatada por f2, separa três dedos anteriores de quatro posteriores.

Dedos para quê: indícios de ambiente aquático

Os autores de 1990 sugeriram que membros com dedos podem ter sido adaptações a ambiente aquático. Estudos posteriores são compatíveis com isso, sem prová-lo: uma reconstrução citada em f4 sugere que os membros posteriores de Ichthyostega teriam servido melhor como remos na água, e a ossificação tardia do úmero de Acanthostega indica uma juventude passada na água. Os dados não dizem que adultos nunca saíam da água, e quatro úmeros são amostra pequena.

O que ainda não se sabe

Os fósseis mostram que o número de dedos variou no Devoniano (oito, sete, seis) e que o padrão de cinco apareceu depois, mas não explicam por que a redução a cinco se estabilizou nem quando exatamente, já que esse intervalo tem poucos fósseis. Também está em aberto como identificar cada dedo de Acanthostega e Ichthyostega em relação aos dedos dos tetrápodes atuais.

Como sabemos

As contagens de dedos vêm do resumo da descrição original de 1990 e de textos que a citam; as interpretações funcionais são hipóteses ou inferências com limites declarados.

Em debate: A contagem de sete e oito dedos é descrita na literatura, mas a identificação dos elementos do pulso e da mão tem mais de um esquema de rotulagem, e há leituras diferentes sobre se os dedos anteriores de Ichthyostega são de origem pré-axial (hipótese de Mednikov, citada em f2).

Fontes

  1. Nature — Polydactyly in the earliest known tetrapod limbs
    Coates, M. I.; Clack, J. A. · 1990 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/347066a0
  2. Frontiers in Zoology — The phantoms of a high-seven - or - why do our thumbs stick out?
    Woltering, J. M.; Meyer, A. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/s12983-015-0117-x
  3. EvoDevo — The evolutionary origin of digit patterning
    Stewart, T. A.; Bhat, R.; Newman, S. A. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/s13227-017-0084-8
  4. iScience — Digital volumetric modeling reveals unique body plan experimentation in the Devonian tetrapod Ichthyostega
    Strong, C. R. C.; Bishop, P. J.; Hutchinson, J. R.; Pierce, S. E. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.isci.2025.112486
  5. Zoological Letters — Evidence for an amphibian sixth digit
    Hayashi, S. et al. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/s40851-015-0019-y
  6. Nature — Life history of the stem tetrapod Acanthostega revealed by synchrotron microtomography
    Sanchez, S.; Tafforeau, P.; Clack, J. A.; Ahlberg, P. E. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/nature19354
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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