Ciências da Terra
Como o Atlântico Sul se abriu: do rifte lento, há 140 milhões de anos, à separação final do Brasil e da África
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Tectônica de placas
A América do Sul e a África não se separaram de uma vez. Segundo um modelo de 2013, a extensão começou há cerca de 140 milhões de anos (Ma), muito lenta, e acelerou entre 126 e 121 Ma. A ruptura da litosfera veio depois, por segmentos, e a separação final ocorreu por volta de 113 Ma no segmento Santos–Benguela e de 103 Ma no domínio equatorial.
Rifte é uma região em que a litosfera continental, a camada rígida externa da Terra, é esticada; ali se formam bacias que recebem sedimentos de lagos. No Atlântico Sul isso está documentado desde o Cretáceo Inferior. Quando a ruptura se completa, nasce fundo oceânico, e as bordas dos continentes viram margens passivas, que entram em subsidência térmica pós-rifte. "Ma" quer dizer milhões de anos atrás. Como a fase continental não deixa isócronas (linhas de mesma idade no fundo do mar), a cronologia vem de um modelo de reconstrução, o de Heine e colegas (2013); outros autores propõem datas e causas diferentes.
Quanto o continente esticou antes de romper
A fase lenta do modelo, de 7 a 9 mm por ano durante cerca de 14 milhões de anos, soma de 98 a 126 km de afastamento. É conta nossa (velocidade × tempo) sobre números do modelo, não uma medição.
Como sabemos: um modelo montado sem isócronas
Enquanto o continente é esticado, não surgem isócronas nem zonas de fratura que marquem o avanço da extensão. Por isso Heine e colegas reconstruíram o rifte restaurando as estruturas das duas margens e dos riftes dentro da África e da América do Sul, até obter um encaixe justo. O fundo oceânico entra depois: a anomalia magnética M0, de 120,6 Ma, aparece em grande parte do Atlântico Sul e serve de ponto de controle. A idade de 113 Ma na bacia de Santos tem uma checagem à parte, a dos evaporitos mais jovens dali.
Uma abertura em segmentos
No sul, os basaltos Paraná–Etendeka datam de 138 a 129 Ma, e o modelo põe o espalhamento oceânico ao sul da cadeia de Walvis e do Alto de Florianópolis perto de 127 Ma. Depois da aceleração de 126 a 121 Ma, a ruptura começou no Aptiano em Sergipe–Alagoas/Rio Muni. O segmento Santos–Benguela rompeu perto de 113 Ma, e o domínio equatorial por último, a 103 Ma (104 Ma nas conclusões do mesmo artigo). Não foi, portanto, uma linha simples de um extremo ao outro.
O que ainda se discute
O modelo de 2013 não é o único. Dengliang Gao propôs em 2022 que a deriva da América do Sul para oeste e seu afunilamento para o sul controlaram a abertura, com início perto de 137 Ma; é a interpretação de um único autor. Sobre a entrada do mar nas bacias, as propostas vão do Berriasiano ao Aptiano tardio; biomarcadores de dois poços da África Ocidental apontam entrada pelo sul, através da Elevação do Rio Grande e da Cadeia de Walvis, no Aptiano inicial.
Como sabemos
As datas e fases vêm de um único modelo (Heine et al., 2013), lido em partes; as alternativas de 2022 e 2023 são de estudos isolados e estão marcadas como hipótese ou interpretação.
Em debate: Cronologia e causa da abertura
- Evidência forte: O Atlântico Sul começou como um ramo de uma grande zona de rifte do Jurássico–Cretáceo entre as placas africana e sul-americana, durante a quebra final do oeste de Gondwana. [1] Abstract
Contexto: Margens brasileira e africana do Atlântico Sul. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A extensão da litosfera no futuro Atlântico Sul está documentada desde o Cretáceo Inferior (Berriasiano), pela formação de bacias de rifte dentro dos continentes e pelo depósito de sedimentos de lagos nas duas margens; o modelo adota 140 Ma como início. [1] Seção 4.3
Contexto: Sistemas de rifte do oeste da África, da África Central e do sul do Atlântico. · Limitações: A data de 140 Ma é a escolha do modelo para o início absoluto; o artigo reconhece que os dados de estratigrafia indicam início diferente de bacia para bacia. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Na fase inicial, de 140 Ma até cerca de 126 Ma, o modelo faz a América do Sul e a África se afastarem em direção leste–oeste a velocidades muito baixas, de 7 a 9 mm por ano; nesse intervalo teria se formado a largura da bacia pré-sal. [1] Seção 4.3
Contexto: Resultado de modelo cinemático de placas, não medição direta. · Limitações: Cálculo nosso, apenas multiplicação, sem fator de conversão: 7 a 9 mm/ano × cerca de 14 milhões de anos = 98 a 126 km de afastamento acumulado. O valor de 14 milhões de anos é o que o resumo do artigo informa para a fase. · Velocidades são saída de um modelo, com incerteza que o artigo discute caso a caso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Entre 138 e 129 Ma ocorreu a erupção da província de basaltos continentais Paraná–Etendeka, no sul do futuro oceano. [1] Seção 4.3
Contexto: Sul do Brasil e Namíbia/Angola, segmento Pelotas–Walvis. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: No segmento sul, ao sul da cadeia de Walvis e do Alto de Florianópolis, o modelo coloca a passagem para espalhamento do fundo oceânico perto de 127 Ma. [1] Seção 4.3
Contexto: Segmento Pelotas–Walvis. · Limitações: O artigo diz que a extensão da crosta continental em margens vulcânicas continua sendo tema de discussão; a data é do modelo. · Data de modelo, não observação direta. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Entre 126 e 121 Ma a velocidade relativa entre as duas placas aumentou pelo menos três vezes, e a direção da extensão girou para nordeste–sudoeste. [1] Abstract
Contexto: Fase II do modelo. · Limitações: O artigo aponta que aumentos de ordem semelhante, com outra cronologia, foram propostos por outros autores. · Resultado de modelo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A anomalia magnética M0, de 120,6 Ma, é identificada em grande parte do Atlântico Sul meridional e é um dos principais pontos de controle da reconstrução. [1] Seção 4.5
Contexto: Atlântico Sul meridional. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A partir da base do Aptiano, a ruptura da litosfera ocorreu de forma diacrônica (em tempos diferentes) ao longo do rifte do Atlântico Sul central, primeiro no segmento Sergipe–Alagoas/Rio Muni. [1] Abstract
Contexto: Atlântico Sul central. · Limitações: Resultado de modelo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A separação final entre América do Sul e África ocorreu perto de 113 Ma no segmento Santos–Benguela e por volta de 103 Ma (104 Ma na conclusão do artigo) no domínio equatorial; a idade de 113 Ma concorda com a dos evaporitos mais jovens da bacia de Santos externa. [1] Seção 4.5
Contexto: Santos–Benguela e domínio equatorial (cadeia de Gana a margem Piauí–Ceará). · Limitações: O mesmo artigo dá 103 Ma no resumo e 104 Ma nas conclusões; a diferença não é explicada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Por volta de 115 Ma grande parte do Atlântico Sul e do domínio equatorial já havia rompido e entrado em subsidência térmica pós-rifte; dados de subsidência de quase todos os segmentos indicam o fim da atividade de falhas. [1] Seção 4.5
Contexto: Margens do Atlântico Sul; exceção citada: bacia de Santos externa, que se separa em 113–112 Ma. · Limitações: Cronologia de modelo, corroborada por dados de subsidência. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Enquanto o continente está sendo esticado não se formam isócronas nem zonas de fratura oceânicas que registrem o avanço da extensão; por isso a fase pré-ruptura é reconstruída restaurando estruturas das margens e dos riftes internos. [1] Abstract
Contexto: Método de reconstrução do artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Segundo os autores do modelo, mudanças na direção e na velocidade da extensão continental estão ligadas à formação de estruturas das margens, como a bacia sag pré-sal e o Alto de São Paulo. [1] Abstract
Contexto: Modelo de Heine, Zoethout e Müller (2013). · Limitações: Os próprios autores chamam a bacia pré-sal sag de enigmática; é uma explicação proposta, não consenso. · Hipótese de um modelo; o artigo diz "suggests". · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Dengliang Gao (2022) interpreta que a deriva da América do Sul para oeste e seu afunilamento para o sul controlaram a assimetria e a irregularidade da abertura do Atlântico Sul. [2] Abstract
Contexto: Estudo de um único autor, com dados geológicos e geofísicos e modelagem analítica. · Limitações: Interpretação recente, ainda sem a validação independente que um consenso exigiria. · Alternativa publicada em 2022; não substitui o modelo cinemático de 2013. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: No mesmo trabalho de 2022, a abertura do Atlântico Sul é situada em cerca de 137 Ma, com um grande graben assimétrico, um deslizamento gravitacional e falhas transferentes. [2] Fig. 10
Contexto: Mesmo modelo da afirmação a13. · Limitações: Data próxima da adotada em f1 (140 Ma), mas obtida por outro método. · Modelo esquemático do autor. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Biomarcadores em dois testemunhos de sondagem da África Ocidental indicam que a primeira entrada de água do mar nas bacias de rifte ocorreu pelo sul, através da Elevação do Rio Grande e da Cadeia de Walvis, no Aptiano inicial; a data da primeira incursão marinha segue em debate. [3] Discussão
Contexto: Testemunhos Onango Ezanga-1 (bacia do Gabão) e Maculungo-1 (bacia do Kwanza), 90 amostras. · Limitações: Resultado de dois poços; as propostas de outros autores para a primeira incursão vão do Berriasiano ao Aptiano tardio. · Há debate publicado sobre o momento e o sentido da primeira entrada do mar. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Solid Earth (European Geosciences Union) — Kinematics of the South Atlantic rift
Heine, C.; Zoethout, J.; Müller, R. D. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.5194/se-4-215-2013 - Communications Earth & Environment (Nature Portfolio) — Continental tapering of South America caused asymmetric non-uniform opening of the South Atlantic Ocean
Gao, D. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s43247-022-00587-3 - Communications Earth & Environment (Nature Portfolio) — Early Cretaceous marine incursions into South Atlantic rift basins originated from the south
Cui, X.; Wignall, B.; Freeman, K. H.; Summons, R. E. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s43247-022-00668-3
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 8; conferência de trechos automatizada)