Zoologia

Abelhas sem ferrão: 259 espécies válidas no Brasil em 2023 e o papel de polinizadoras, do açaí à floresta

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

O levantamento de 2023 contabiliza 259 espécies válidas de abelhas sem ferrão (tribo Meliponini) no Brasil, mais 62 ainda sem descrição formal; 40% das válidas só ocorrem no país. Como polinizadoras, foram o grupo mais frequente nas flores de açaí amostradas na Amazônia central (46% dos insetos) e as únicas achadas com pólen no corpo nas flores femininas.

Abelhas sem ferrão formam a tribo Meliponini, da família Apidae: abelhas sociais de ferrão atrofiado, de distribuição pantropical e muito diversas na região neotropical, com cerca de 440 espécies válidas. "Espécie válida" é a que tem nome científico aceito; "não descrita" é a que os taxonomistas reconhecem como distinta, mas ainda sem nome formal; "endêmica" é a que só ocorre no Brasil. Polinização é o transporte de pólen entre flores, necessário para formar frutos e sementes em muitas plantas. O foco aqui são as espécies nativas; as abelhas-de-mel africanizadas (Apis) ficam fora, e a comunicação das sem ferrão já foi tratada em outro post.

Uma lista que muda a cada revisão

Entre os levantamentos de Pedro (2014) e Nogueira (2023), as espécies válidas do Brasil passaram de 244 para 259, e as reconhecidas mas sem descrição caíram de 89 para 62. Parte da diferença vem de espécies novas; parte, de revisões que reorganizam grupos e nomes.

Como sabemos que são 259 (e por que o número muda)

O número vem de uma compilação, não de uma contagem de campo: o autor reuniu dados publicados, partindo do levantamento de Pedro (2014), que incluía 244 espécies e outras 89 sem descrição, e somou espécies descritas e mudanças de nome desde então. Desde 2014, 59 espécies novas foram descritas na região neotropical, 16 com registro no Brasil. O autor lembra que muitos grupos ainda precisam de revisão; 259 é a contagem de 2023, não um total fechado.

Onde estão e quais gêneros dominam

Pelos resultados do artigo, o Norte tem 194 espécies, o Centro-Oeste 99, o Nordeste 96, o Sudeste 70 e o Sul 36; a soma passa de 259 porque uma espécie pode ocorrer em várias regiões (cálculo nosso). O autor liga o mínimo no Sul à queda da riqueza com a distância do equador. Melipona tem 40 espécies no país, Plebeia 17 e Scaptotrigona 16. A Amazônia é pouco amostrada, então o Norte pode estar subestimado.

Como se mede o papel de polinizadora: o caso do açaí

Numa plantação experimental de 13 ha em Rio Preto da Eva (AM), pesquisadores monitoraram visitas a inflorescências de 20 plantas, de agosto de 2018 a maio de 2019, e calcularam dois índices por espécie: importância relativa e eficiência no transporte de pólen. Das 1.656 coletas, 45,77% eram abelhas sem ferrão, e Trigona williana e Partamona ferreirai lideraram o ranking. Limite: mede potencial de polinização numa só plantação, não frutos formados.

O que há por trás: dieta ampla, vibração e manejo

Revisões apontam duas características: dieta mais diversa que a das abelhas-de-mel e, em Melipona, a vibração do corpo que libera o pólen de anteras com poros, como as do tomate. O manejo já foi testado: em açaí do leste da Amazônia, colônias de Scaptotrigona aff. postica teriam elevado 2,5 vezes o tamanho e o número de frutos por cacho, segundo estudo citado por Ladislau et al. (2026), que não lemos no original.

Ameaças e o que sabemos da criação

Sem florestas com ocos de árvore, falta onde nidificar: as sem ferrão dependem de cavidades protegidas, e o desmatamento reduz esses locais, embora o artigo cite estudos que divergem. Uma pesquisa piloto com 92 respostas de criadores latino-americanos, somando 4.548 ninhos, estimou a mortalidade anual de ninhos em 15%. É amostra pequena e autosselecionada, de vários países; serve de indício, não de retrato do Brasil.

Como sabemos

Contagens vêm de uma compilação taxonômica sujeita a revisão, e o papel de polinizadoras repousa em estudos de caso com limites declarados.

Fontes

  1. EntomoBrasilis (Entomologistas do Brasil) — Overview of Stingless Bees in Brazil (Hymenoptera: Apidae: Meliponini)
    Nogueira, D. S. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.12741/ebrasilis.v16.e1041
  2. Journal of Economic Entomology — Edible Fruit Plant Species in the Amazon Forest Rely Mostly on Bees and Beetles as Pollinators
    Paz, F. S.; Pinto, C. E.; de Brito, R. M.; Imperatriz-Fonseca, V. L.; Giannini, T. C. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1093/jee/toaa284
  3. Neotropical Entomology — Native Bees as Key Pollinators of Açaí (Euterpe oleracea) in the Central Amazon
    Ladislau, J. V.; Hipólito, J.; Moreira, E. F.; Mahlmann, T.; de Oliveira, M. L.; Krug, C. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s13744-026-01383-w
  4. Oecologia — Functional diversity of Brazilian bees: revealing the unique patterns of the Neotropics
    Cordeiro, G. D.; Giannini, T. C.; Consorte, P. M. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s00442-025-05828-8
  5. Insects — Overview of Bee Pollination and Its Economic Value for Crop Production
    Khalifa, S. A. M. et al. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3390/insects12080688
  6. Insects — Development of Tools to Understand the Relationship between Good Management Practices and Nest Losses in Meliponiculture: A Pilot Study in Latin American Countries
    Ocaña-Cabrera, J. S.; Martin-Solano, S.; Saegerman, C. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3390/insects15090715
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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