Zoologia

Abelhas deslocadas têm um mapa cognitivo? O que o radar harmônico mostrou, a crítica de 2014 e a réplica

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Inteligência animal

Rastreadas por radar, abelhas deslocadas e com o relógio interno alterado voltaram à colmeia em proporção semelhante à de abelhas sem alteração, o que Cheeseman e colegas (2014) tomaram como prova contra vetores referidos ao Sol e a favor de um mapa. Críticos replicaram que a comparação de cenas visuais também explica os dados; os autores mantiveram o mapa. Em 2024, um "mapa de vetores" surgiu como meio-termo. O debate segue aberto.

Nesse debate, mapa cognitivo é uma representação única do território em que vários locais ficam num mesmo sistema de coordenadas, o que permite calcular o rumo entre dois pontos quaisquer. A prova clássica é o atalho: o animal parte de um ponto novo e vai direto ao alvo. Nas abelhas, o teste padrão captura a forrageira no comedouro ou ao sair da colmeia e a solta noutro ponto, onde o radar harmônico acompanha o voo. A alternativa mais simples guarda, para cada ponto de referência, só um vetor de volta (rumo e distância) referido à bússola solar. Este post trata de abelhas-de-mel deslocadas; formigas e a dança das abelhas têm posts próprios.

Seis horas de relógio trocadas com anestesia

Para testar a bússola solar, Cheeseman e colegas deslocaram o relógio interno das abelhas em cerca de 6 h com anestesia geral. Na saída, elas voaram para o lado errado, como previsto; depois, voltaram à colmeia quase tanto quanto as sem alteração.

O que o radar mostrou em 2005

Menzel e colegas (2005) rastrearam por radar harmônico abelhas capturadas e soltas em outros pontos. Elas seguiam primeiro o rumo anterior à captura, depois faziam voos lentos de busca e então partiam retas para a colmeia ou para o comedouro, de lugares longe de onde se vê o alvo. Os autores leram isso como memória espacial em forma de mapa. Sozinho, o resultado não exclui regras baseadas em imagens guardadas e vetores.

O teste do relógio alterado (2014)

A hipótese rival previa que, se o vetor de volta fosse referido ao Sol, mudar o relógio desviaria também a segunda parte do voo. Cheeseman e colegas anestesiaram abelhas e as soltaram em campo aberto. A saída foi desviada, como previsto, mas a volta à colmeia foi parecida com a do controle: 19 de 24 contra 11 de 13 no experimento 1. Com uma fileira de arbustos no local, nem a saída se desviou.

A crítica e a réplica

Cheung e colegas apontaram que o estudo enfrentou uma só alternativa. Comparar a vista atual com cenas guardadas, sem bússola nem mapa, também poderia explicar a volta, e a anestesia talvez tenha só desligado o vetor de caminho. Na réplica, os autores disseram que o horizonte do experimento 1 está abaixo da resolução do olho da abelha (2°) e que a crítica se apoia em insetos que andam. Cada lado manteve a sua leitura.

O que mudou depois e o que segue aberto

Em 2024, Patel e colegas mostraram em mamangavas, numa arena de laboratório, que vetores de retorno ficam guardados na memória de longo prazo e podem ser recuperados num lugar conhecido. Eles propõem um mapa de vetores, ancorado em locais familiares e sem representação única do espaço. É um meio-termo entre as duas posições e não decide o caso de abelhas-de-mel em voo. Até onde as fontes mostram, nenhum teste separa mapa, vetores e cenas.

Como sabemos

Os resultados e as posições das cartas de 2014 estão em fontes abertas lidas na íntegra, mas o artigo de 2005 foi lido só no resumo e o estado atual do debate se apoia em um estudo de laboratório e uma revisão.

Em debate:

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Honey bees navigate according to a map-like spatial memory
    Menzel, R.; Greggers, U.; Smith, A.; et al. · 2005 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0408550102
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Way-finding in displaced clock-shifted bees proves bees use a cognitive map
    Cheeseman, J. F.; Millar, C. D.; Greggers, U.; Lehmann, K.; Pawley, M. D.; Gallistel, C. R.; Warman, G. R.; Menzel, R. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1408039111
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Still no convincing evidence for cognitive map use by honeybees
    Cheung, A.; Collett, M.; Collett, T. S.; et al. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1413581111
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Reply to Cheung et al.: The cognitive map hypothesis remains the best interpretation of the data in honeybee navigation
    Cheeseman, J. F.; Millar, C. D.; Greggers, U.; et al. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1415738111
  5. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Parallel vector memories in the brain of a bee as foundation for flexible navigation
    Patel, R. N.; Roberts, N. S.; Kempenaers, J.; et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2402509121
  6. Proceedings of the Royal Society B — Unpacking the navigation toolbox: insights from comparative cognition
    Jeffery, K. J.; Cheng, K.; Newcombe, N. S.; Bingman, V. P.; Menzel, R.; et al. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2023.1304
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)

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