Botânica
O que uma abelha vê numa flor que nós não vemos: um alvo em ultravioleta
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Abelhas enxergam ultravioleta, luz que o olho humano não registra. Em muitas flores, o centro das pétalas absorve o ultravioleta e a borda o reflete, formando um desenho em forma de alvo. Para nós a pétala parece uniforme; para a abelha, o desenho pode apontar a direção do néctar e do pólen.
O olho da abelha-europeia tem três tipos de fotorreceptor, com picos de sensibilidade em cerca de 344 nm (ultravioleta), 436 nm (azul) e 544 nm (verde). Nós também temos três tipos, mas ajustados a azul, verde e vermelho. Muitas flores combinam pigmentos que absorvem e que refletem ultravioleta em partes diferentes da pétala. O padrão mais conhecido é o alvo, com centro escuro em ultravioleta e periferia clara. Ele só aparece em fotografia com filtro ou câmera sensível a esse espectro. Pesquisas com bumbus e com flores artificiais mostram que o contraste e a saturação de cor nas pétalas orientam a aproximação do inseto.
O alvo também protege o pólen
Na rosácea Argentina anserina, o alvo ultravioleta é maior onde a radiação UV é mais intensa. O UV-B pode reduzir a viabilidade do pólen, e um alvo maior que absorve essa luz se associou a mais grãos viáveis.
Três receptores, outra paleta
A abelha-europeia tem fotorreceptores com picos em cerca de 344, 436 e 544 nm: ultravioleta, azul e verde. Não há receptor de vermelho. Por isso a cor vermelha não é percebida como nós a percebemos, e uma pétala que parece uniforme para nós pode ter, para a abelha, regiões de cor diferentes, definidas pelo quanto cada região reflete de ultravioleta.
O alvo no centro da pétala
O desenho mais estudado tem centro que absorve ultravioleta e periferia que o reflete. Para quem só vê a luz visível, a pétala é de uma cor só. Os pesquisadores descrevem esse padrão como capaz de guiar polinizadores até a recompensa, o que explica o nome popular de guia de néctar.
O que os experimentos mostram
Em Argentina anserina, pétalas com padrão atraíram mais abelhas e sirfídeos do que pétalas uniformes. Mas o ganho de eficiência na coleta não ficou provado: o alvo normal superou o invertido só na taxa de forrageio. Com bumbus e flores-modelo, a resposta dependeu do contraste e da saturação, não de uma preferência inata pelo centro.
Um padrão com mais de uma função
O alvo ultravioleta tende a ser maior onde a radiação é mais intensa ou o clima é mais frio, e alvos maiores se associam a pólen mais viável após exposição ao UV. O desenho pode servir ao mesmo tempo à comunicação com o polinizador e à proteção do pólen. Cada polinizador reage de um jeito: mariposas-esfinge preferem alvos que refletem UV.
Como sabemos
Visão ultravioleta das abelhas e existência dos padrões são consenso; a função exata de cada padrão varia por espécie e é debatida.
Em debate:
- Consenso científico: Abelhas têm visão tricromática, com fotorreceptores sensíveis a ultravioleta, azul e verde. [1] [2]
- Fato estabelecido: Na abelha-europeia, os fotorreceptores têm picos de sensibilidade em cerca de 344 nm, 436 nm e 544 nm. [2]
- Fato estabelecido: Abelhas são sensíveis ao ultravioleta e humanos não. [1]
- Fato estabelecido: O alvo ultravioleta (centro que absorve, periferia que reflete) é o padrão ultravioleta floral mais conhecido e é invisível para humanos. [1]
- Evidência forte: Padrões de cor, inclusive ultravioleta, podem guiar polinizadores até a recompensa floral. [1]
- Evidência forte: Em experimentos com flores-modelo, bumbus sem experiência prévia não se dirigiam espontaneamente ao centro da flor; respondiam ao contraste e à saturação do padrão. [1]
- Evidência forte: Em Argentina anserina, a presença do padrão ultravioleta aumentou a atração de abelhas e de moscas sirfídeas em comparação a pétalas uniformes. [3]
- Em debate: Nesse mesmo estudo, o alvo normal superou o invertido só na taxa de forrageio, e os autores questionam que o padrão torne a coleta mais eficiente. [3]
O efeito do alvo sobre a eficiência de forrageio é debatido; o benefício de atração é mais claro. - Evidência forte: Populações com maior irradiação UV ou mais frias tendem a ter alvos ultravioleta maiores. [4]
- Evidência forte: A porcentagem de grãos de pólen viáveis após tratamento com UV aumentou com o tamanho do alvo. [4]
- Consenso científico: Abelhas não têm fotorreceptor de vermelho; a cor vermelha não é percebida como nós a percebemos. [2]
- Consenso científico: Flores de angiospermas modernas não usam toda a gama de cores que as abelhas conseguem distinguir. [2]
- Evidência forte: Mariposas-esfinge preferem flores com alvo que reflete UV, enquanto borboletas-rabo-de-andorinha preferem contraste de cor. [4]
Fontes
- Lunau, Camargo e Ren, Plant Biology (2025) — Bees, flowers and UV
consultada em 06/10/2026 - Hempel de Ibarra, Vorobyev e Menzel, J Comp Physiol A (2014) — Mechanisms, functions and ecology of colour vision in the honeybee
consultada em 06/10/2026 - Koski e Ashman, Functional Ecology (2014), dados no Dryad — Dissecting pollinator responses to a ubiquitous ultraviolet floral pattern in the wild
consultada em 06/10/2026 - Fairnie et al., Essays in Biochemistry (2022) — Eco-Evo-Devo of petal pigmentation patterning
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão